Arquivo | fevereiro 2015

VACINAS SÃO SEGURAS?

SIM! Vacinas se encontram entre os maiores avanços em saúde pública por sua capacidade de erradicar certas vacinas2doenças como a varíola, poliomielite e sarampo, além de diminuir o número de casos de meningites, pneumonias e otites, produzidas por bactérias para as quais dispomos de vacinas. Mais recentemente foi lançada uma vacina contra o Papilomavirus humano, provavelmente contribuindo para a redução do número de casos de câncer do colo do útero.

Apesar dos comprovados benefícios  e segurança das vacinas, de tempos em tempos surgem resistências de alguns pais, baseadas em informações incorretas. Quando pais resistem a vacinar seus filhos, a consequência é o surgimento de surtos da doença, como agora, com o Sarampo, nos Estados Unidos, que obrigou o presidente Barak Obama a fazer um apelo público para que os pais vacinassem seus filhos.

Mas, a pergunta é se vacinas são seguras e eu respondi que sim, de onde vem essa resistência? Dizer que algo é seguro não significa que não possa ter efeitos colaterais indesejáveis. Nada, absolutamente nada, que acontece nas nossas vidas é isento de efeitos colaterais. O ato de viver tem efeitos colaterais como o envelhecimento e, inevitavelmente, a morte. Isto é, se tudo der certo nas nossas vidas, se vivermos sem adoecermos, mesmo assim, notaremos os efeitos colaterais do tempo na nossa pele, capacidade física, flexibilidade, memória etc. Portanto, quando falamos em segurança de um produto, o que está sendo dito é que os efeitos colaterais (que sempre existem, insisto), são muitíssimo menores do que os benefícios que tal produto pode nos trazer. Por exemplo, o efeito colateral de veículos são a poluição e os acidentes com consequências as mais variada. Ninguém pensa em abandonar o uso de veículos por conta dos seus efeitos colaterais.  O que se faz, ou deveria fazer, é buscar reduzir ou minimizar esses efeitos. Poderia dar outros exemplos, bem humorados, para que os que leem este blog entendam esse conceito de risco x benefício. Mas, vou direto para as vacinas. Se alguém tiver dúvidas pode sempre deixar um comentário que eu tentarei responder.

Vacinas, podem produzir efeitos colaterais, mas seus benefícios são infinitamente maiores do que o risco envolvido. A primeira coisa importante a ser dita é que as doenças para as quais as vacinas protegem nossos filhos não são “inocentes” ou “bobas”. Sarampo, por exemplo, é uma doença que mata.  Como no Brasil, graças a um excelente programa nacional de imunização, não temos tido casos de Sarampo, poucos leitores do blog sequer viram um único caso. Mas, quando tínhamos epidemias de Sarampo, havia uma mortalidade significativa por esta doença. Mesmo sem matar, o Sarampo poderia produzir pneumonia e encefalite com consequências graves para o desenvolvimento da criança. A Poliomielite deixa a criança com paralisia, a meningite pode ser fatal ou deixar sequelas, o tétano não tem cura e a sua mortalidade é alta. Portanto, o argumento de que é melhor a criança contrair a doença do que vaciná-la, não é correto.

Em geral, os efeitos colaterais das vacinas são mínimos, incluindo: dor e vermelhidão no local da injeção, irritabilidade por conta deste desconforto e febre (ocasional e não obrigatória). Algumas injeções podem deixar a região com um endurecimento ou pequeno nódulo. A vacina BCG pode produzir um reação local mais intensa, com uma pequena ferida que cicatriza em até alguns meses (pode demorar, o que é normal). Tirando estes efeitos colaterais, raramente uma criança saudável apresenta sintomas mais graves. Crianças imunodeprimidas ou com alergias diagnosticadas a algum componente da vacina, podem apresentar reações raras, mais graves.

Uma das vacinas para as quais há uma certa desinformação é a  contra o Sarampo. Até hoje, circula pela internet a informação, errada, de que esta vacina produz autismo. Se esta informação está errada, de onde surgiu? A história é simples, as consequências nem tanto. Em 1998, a revista médica Lancet, uma das mais prestigiosas publicações científicas, publicou um artigo onde os autores descrevem uma “vaga associação entre a vacina contra o Sarampo e distúrbios do desenvolvimento”. Este trabalho foi baseado em um estudo com 12 crianças! O fato é que o trabalho se mostrou forjado, o Lancet se retratou da sua publicação e o Dr. Wakefield, autor principal do artigo, foi proibido de exercer a medicina na Inglaterra por lapso ético. Portanto, toda essa história de vacina e autismo surgiu a partir de um artigo sem validade alguma. Na sequência, algumas pessoas começaram a atribuir ao Timerosal, um preservante utilizado na indústria o potencial de toxicidade porque continha mercúrio. De fato, o Timerosal contém etilmercurio e não metilmercurio, este sim, tóxico. Desde 2001 que as vacinas não contém mais Timerosal (com a exceção da vacina contra a gripe). Portanto, o mito do autismo provocado pela vacina contra o Sarampo nasceu de um artigo sem valor científico (uma fraude) e da informação dos riscos do Timerosal, que não é mais utilizado em vacinas há 14 anos!

Em linguagem científica, sempre muito cautelosa, as revisões de centenas de estudos feitos com a vacina contra o Sarampo concluiram que “as evidências favorecem a rejeição de uma relação causal entre a vacina SRC (Sarampo, Rubéola e Caxumba- também conhecida como MMR) e o Autismo”.

Quando as convicções se baseiam em evidências científicas, a certeza é temporária, característica do pensamento científico. Quando estas se sustentam em crenças ou crendices, nada será capaz demover a “verdade absoluta”. Neste momento do nosso conhecimento científico, vacinar seus filhos é seguro e não vaciná-los significa um ato irresponsável de exposição a consequências potencialmente muito graves. Um adulto que opta de forma esclarecida, por não tomar uma vacina (ou parar de fumar, ou deixar de ser sedentário), está dentro do seu direito de livre arbítrio. É moralmente aceitável impor uma crença a um menor e, como consequência, colocar sua vida em risco?

 

 

 

POSSO VACINAR MEU FILHO NO POSTO DE SAÚDE?

vacina2Pode! O Brasil possui um excelente programa nacional de imunizações que não só oferece uma gama muito abrangente de vacinas de qualidade, como estas são conservadas e aplicadas de forma adequada nas unidades do setor público. Este é um longo post. Se você não tiver nem tempo, nem paciência de lê-lo até o fim, o resumo é: não há justificativa técnica para se deixar de vacinar os filhos na rede do SUS. Abaixo, comento vacina por vacina, para quem tiver interesse em aprofundar o seu conhecimento.

Uma das maneiras de se avaliar se um programa de vacinação funciona é utilizando o Sarampo como uma “doença sentinela”. Por ser uma doença universal, altamente contagiosa, nos locais onde as coberturas vacinais não são homogêneas, e estão abaixo de 95%, ocorrem surtos a cada dois anos. Atualmente, nos países que conseguem manter altos níveis de cobertura vacinal, a incidência da doença é reduzida, ocorrendo em períodos cíclicos que variam entre cinco a sete anos. Como a vacina contra o Sarampo (parte da tríplice viral que protege contra o Sarampo, Rubéola e Caxumba) é feita com vírus vivo, atenuado, exige uma cadeia do frio muito eficiente. Cadeia do frio é um sistema de distribuição e conservação refrigerado, do fabricante até o local onde será administrada a vacina. Portanto, além da cobertura (% de pessoas que recebem a vacina), esta precisa estar bem conservada para “funcionar”. Como no Brasil não temos tido surtos de Sarampo e muitos casos notificados e confirmados se devem à “importação” da doença, trazida por viajantes, podemos afirmar,  que o nosso sistema de vacinação é muito bom. Se não fosse, estaríamos vivendo uma situação semelhante aos Estados Unidos, onde o presidente Barak Obama foi à televisão, incentivar os pais a vacinarem seus filhos porque o número de casos de Sarampo está aumentando de forma significativa, com vários surtos epidêmicos identificados.

Se o sistema brasileiro de vacinação pública é tão bom, por que persiste a dúvida se os pais podem ou não vacinar seus filhos nos postos de saúde? Existem vários motivos, a grande maioria baseada em informações imprecisas ou incompletas a respeito das vacinas. Também pode haver algum preconceito contra o sistema público que é considerado, por muitos, como sendo para pobres. O Sistema Único de Saúde (onde são aplicadas as vacinas), é  para todos os brasileiros. Quanto mais o utilizarmos e exigirmos que funcione, menos necessidade teremos de pagar um seguro privado, sobrando mais dinheiro para cada um de nós. É o que fazem a grande maioria dos países desenvolvidos. Lá, não há um sistema para pobres e outro para a classe média ou rica. Como exemplos de sistema único de saúde vejam como funciona a saúde no Canadá, Inglaterra e Alemanha. Mas, tirando esse eventual preconceito, existem as informações divulgadas, nem sempre precisas, envolvendo as vacinas. A seguir, vou comentar cada vacina e a eventual diferença que possa existir entre a oferecida nos postos de saúde e nas clínicas privadas.

BCG- vacina que protege contra a Tuberculose, deve ser feita nos primeiros dias de vida. Não há diferença nenhuma entre a vacina dos postos e das clínicas.

DPT- vacina que protege contra a difteria, tétano e coqueluche. Deve ser dada em 3 doses, nos seis primeiros meses de vida e reforços aos 15 meses e 4 a 6 anos. O componente Coqueluche da vacina oferecida nos postos é feita em cultivo de células, sendo chamada de celular. Nas clínicas privadas, o componente Coqueluche é feito sem o uso de células, sendo chamada de acelular. A vacina celular apresenta uma incidência um pouco maior de efeitos colaterais mínimos, como febre, irritabilidade, dor e vermelhidão local. Estes efeitos tendem a ser mais significativos à medida que a pessoa se torna mais velha. Por esse motivo, adolescentes e adultos devem receber a vacina acelular. Mas, para os bebês, o desconforto, quando presente, é passageiro, sem oferecer nenhum risco maior. Hoje, há uma discussão no meio científico sobre a durabilidade da proteção da vacina acelular. Pode ser que, nos próximos anos, se confirme que esta (a acelular) vai exigir reforços periódicos. Conclusão: as diferenças entre  a vacina celular dos postos e acelular das clínicas não justificam a opção pelas clínicas.  Para as gestantes, os postos de saúde oferecem a vacina acelular para adultos.

Haemophilus influenzae tipo B- vacina que protege contra doenças produzidas por esta bactéria, principalmente otites, laringites, pneumonias e meningites. É administrada em conjunto com a DPT, sendo chamada então de vacina quádrupla ou tetra. Não existe diferença alguma entre este componente da vacina dado nos postos de saúde ou em clínicas privadas.

Pólio- vacina que protege contra a Poliomielite (Paralisia Infantil). Pode ser administrada por via oral (gotinha) ou injetável. Atualmente, o programa de imunização nacional utiliza uma combinação de ambas. As primeiras duas doses são dadas por via injetável e as doses seguintes, por via oral. As datas desta vacina acompanham a quádrupla (três doses no primeiro ano + reforços a partir dos 15 meses). Tanto as vacinas injetáveis, quanto as orais, são idênticas nos postos e nas clínicas. A diferença que existe é que, as clínicas oferecem a vacina injetável de Polio, junto com a DPTHib (tetra), sendo então chamada de pentavalente ou penta, como é mais conhecida (5 vacinas em uma injeção). Esta diferença não representa nenhuma vantagem em termos de proteção, só de comodidade ou conforto.

Hepatite B- vacina que protege contra este tipo de Hepatite. A importância de se proteger as crianças contra a Hepatite B é que esta pode estar implicada em doenças mais graves do fígado, como cirrose e câncer. Esta vacina é dada logo após o nascimento, ainda na maternidade, seguida por mais duas doses, aos 2  e 6 meses de idade. Tanto no posto, quanto nas clínicas é a mesma vacina. Nos postos de saúde é adicionada à tetra, sendo chamada de pentavalente ou penta. Nas clínicas, é adicionada à penta, sendo chamada de hexavalente ou hexa. Do ponto de vista da proteção que oferecem, são idênticas. Apenas há a conveniência de 6 vacinas em uma injeção.

Rotavirus- vacina que protege contra um infecção gastrointestinal (diarréia) que pode ser muito grave. É dada por via oral (gotinha), a partir de 2 meses. A idade limite para se iniciar a vacinação contra o Rotavirus é de 14 semanas e 6 dias. Crianças com 15 semanas de idade não podem iniciar a vacinação (primeira dose). Existem dois tipos de vacina contra o Rotavirus. Ambas possuem a mesma capacidade de proteger os bebês. Nos postos é dada a vacina monovalente. Esta necessita de duas doses, aos 2 e 4 meses de idade. Nas clínicas, em geral, utilizam a vacina pentavalente, que necessita de três doses, aos 2,4 e 6 meses de vida. Esta é uma das poucas vacinas que não pode ser intercambiada.  Isto é, todas as doses devem ser dadas no mesmo lugar onde foi dada a primeira dose, não se devendo começar em um lugar (posto ou clínica) e trocar para outro (posto ou clínica).

Pneumocócica ou pneumo – vacina que protege contra as infecções produzidas por esta bactéria, principalmente  pneumonias e meningites. As vacinas aplicadas nos postos de saúde protegem contra 10 tipos de pneumococos, enquanto as das clínicas cobrem 13 tipos diferentes da bactéria. Esta é uma vacina onde há uma diferença entre o posto e a clínica. Na prática, a vacina oferecida nos postos protege contra os principais tipos de pneumococos. Esta vacina é dada em três doses, nos 6 primeiros meses de vida e um reforço aos 12 meses. Ainda existe uma outra vacina antipneumocócica, que protege contra 23 tipos de pneumococos. No entanto, devido à forma como é produzida, só pode ser aplicada a partir dos dois anos de idade, ficando reservada para casos especiais. Não faz parte do calendário vacinal de rotina.

Meningocócica C ou meningo C- vacina que protege contra um dos tipos do meningococo, responsável pela meningite meningocócica. Deve ser dada em duas doses nos seis primeiros meses de vida e um reforço aos 15 meses de idade. A vacina dos postos e das clínicas são idênticas. Atualmente existe uma vacina quadrivalente que protege contra quatro tipos de meningococos (A, C,W135 e Y). Esta vacina pode ser dada a partir dos 2 anos de idade  e só se encontra disponível nas clínicas particulares.

Tríplice viral ou SRC ou MMR- vacina que protege contra o Sarampo, Rubéola e Caxumba. A primeira dose deve ser dada aos doze meses de idade, seguido de um reforço, que nos postos será dado a partir dos 15 meses, utilizando a vacina tetra viral, que inclui o componente Varicela (Catapora). A vacina oferecida nos postos é idêntica à das clínicas.

Varicela- vacina que protege contra a Varicela ou Catapora. Nos postos esta vacina é oferecida junto com a tríplice viral, sendo chamada de tetra viral,  administrada a partir dos 15 meses (ou 3 meses após a dose da tríplice viral). Esta dose já é o reforço da tríplice viral. Nas clínicas privadas existe a opção desta vacina ser dada de forma separada, no mesmo dia em que é dada a tríplice viral. O reforço  poderá ser dado a partir de 3 meses após a primeira dose. Para o reforço, as clinicas privadas oferecem a tetra viral. Do ponto de vista da proteção, as vacinas do posto e da clínica são idênticas.

Hepatite A- vacina que protege contra a Hepatite A. Deve ser dada em duas doses. A primeira aos 12 meses de idade e a segunda, seis meses após esta dose. As vacinas do posto e da clínica são idênticas.

HPV- vacina que protege contra as infecções do Papilomavirus humano. Este vírus está implicado no câncer de colo de útero e verrugas genitais. No sistema público está sendo oferecida a vacina dupla, exclusivamente para meninas. O calendário sugerido pelo Ministério da Saúde é de três doses. A segunda dose seis meses após a primeira e a terceira 60 meses após a primeira. Esta vacina deve ser dada entre os 9 e 19 anos de idade. Nas clínicas existe a vacina quádrupla ou tetra, que pode ser aplicada em meninas e meninos. O calendário das clínicas privadas, também é de três doses, mas o intervalo é mais curto. A segunda dose é dada 2 meses após a primeira e a terceira 6 meses após a primeira. A diferença entre as vacinas dos postos e das clínicas é que as tetra (clínicas) protegem não só contra os vírus implicados no câncer do colo de útero, como também contra verrugas genitais. Por esse motivo os meninos devem ser vacinados com a tetra e não com a dupla.

Este post ficou longo, mas espero que ajude os pais e entenderem quais são as diferenças, mínimas, entre as vacinas dos postos e das clínicas e se sintam seguros em vacinar seus filhos no SUS.

Abaixo, o calendário vacinal do SUS:

 

 

 

MEDICINA ALTERNATIVA

O dicionário Houaiss, dá como uma das possíveis definições  para a palavra alternativa: “uma de duas ou mais possibilidades pelas quais sedoctor pode optar”. Esta me parece ser a definição que mais se aplica à expressão medicina alternativa ou terapias alternativas. Portanto, a medicina alternativa, seria uma opção. Me pergunto então, que opção é esta? Entre quais alternativas alguém opta, quando se trata de saúde?  Eu não vejo opção possível. Vejo apenas uma possibilidade que é a da medicina que funciona. Isto é, oferece o melhor resultado possível, com menos efeitos colaterais e menor custo, para o paciente. Ouso dizer que pouquíssimas pessoas não escolheriam essa medicina. A alternativa a esta, seria, obrigatoriamente,  uma medicina que não obtivesse o mesmo resultado, ou produzisse mais efeitos colaterais, ou ainda, a custo desproporcional ou descabido. Posto desta forma, quem escolheria  a alternativa?

Mas, como seres humanos, somos traídos por sutilizas da linguagem. Uma medicina alternativa seria uma menos agressiva, menos química, mais natural. Claro que, se houver uma terapia ou abordagem médica que seja menos agressiva, com eficácia comprovada, esta não deveria ser a alternativa, mas, a primeira escolha. Ocorre que se criou uma falsa polarização entre o que é medicina tradicional e práticas ditas alternativas. Terapias alternativas vendem a ideia de que são mais poderosas e menos tóxicas do que as tradicionais ou ocidentais.

Uma palavra que costuma dar força ao argumento alternativo é “química”. As coisas “com química”, são percebidas como tóxicas, agressivas. No extremos oposto, as coisas naturais, só porque possuem esse atributo, são revestidas de uma aura de suavidade, delicadeza e ausência de efeitos colaterais. Tudo ao nosso redor é químico ou bioquímico, seja industrializado ou natural. Água, é química pura (H2O)! Veneno de cobra é natural e posso assegurar que não tem nada de suave e delicado. Mata! Do mesmo modo que cogumelos venenosos, inocentemente naturais, também são capazes de produzir graves consequências se ingeridos. Na linha natural, temos desde as picadas de inseto, até os acidentes com raios. Tudo naturalíssimo!

Mas por que essas terapias funcionam?  Somos contadores de histórias e buscamos padrões em tudo que nos cerca. Confundimos correlação com causalidade. Exemplifico: o índio dança e a chuva cai. Houve uma correlação, mas certamente não uma relação de causa-efeito. Neste aspecto somos, muitas vezes, traídos pelo senso comum ou até pelo que vemos.Olhando para o que acontece todos os dias, não lhe parece que de fato é o Sol que passeia ao redor da Terra? O que estou dizendo é que muitas vezes a pessoa toma um determinado produto e sente alívio do sintoma. Isso é um fato, mas, não demonstra que foi aquele produto que produziu o alívio do sintoma. Uma grande maioria de sintomas desapareceria por si só. É o que se chama história natural da doença. É o que ocorre com a maioria dos bichos. É só deixar o cachorro ou o gato doentes,  quietinhos por uns dias que, na maioria dos casos, ficam bons. Seríamos nós humanos tão mais frágeis que precisaríamos sempre de um remédio? Uma outra razão para as pessoas se sentirem melhor é o conhecido efeito placebo. Em estudos científicos onde se administra uma droga para um grupo e um comprimido de açúcar para outro, um certo número de pessoas que ingeriram o comprimido de açúcar irá relatar melhora dos sintomas. Existem estudos muito curiosos que demonstram que a cor do comprimido de açúcar,  pode influenciar a melhora dos sintomas. Isso só confirma que somos seres complexos, racionais, sem dúvida, mas, extremamente simbólicos, ainda que tenhamos dificuldade em aceitar essa nossa característica.

Um grande número de pessoas que melhoram com terapias alternativas ou tradicionais ficaria boa se não tomasse nenhum remédio. Não defendo a alopatia. Defendo uma prática médica que produza o melhor resultado possível, com  menos efeitos colaterais e menor custo para o paciente. Isso, baseado em evidências suportadas por uma rigorosa metodologia científica. A divisão em científica e não-científica se aplica à medicina tradicional, do leste, oeste, antiga, nova, integral, holística ou com qualquer nome que se apresente. Pouco importa o seu nome, o que deveria nos interessar é se suas propostas diagnósticas e terapêuticas passaram pelo “portão da racionalidade” que, hoje, é método científico.

Talvez, o movimento na direção da chamada medicina alternativa se deva a um excesso de medicamentos que são prescritos e consumidos. Concordo plenamente. O número de remédios vendidos, cuja eficácia é duvidosa ou sabidamente inexistente é enorme. Há uma medicamentalização da vida, injustificável. Para tudo parece haver  um remédio, tradicional ou alternativo!  A indústria farmacêutica pressiona os médicos a prescreverem e as pessoas depositam nos medicamentos uma confiança que, nem sempre, se justifica. O desejo de algo mágico, a negação das probabilidades conhecidas, a substituição destas por esperanças milagrosas é fácil de se compreender e se manifesta tanto no consumo abusivo de remédios tradicionais, quanto nos ditos alternativos.

Insisto que não defendo a medicina dos remédios tradicionais, vendidos nas farmácias. Defendo a medicina baseada em evidências. Evidências estas, colhidas com o rigor do método científico, introduzido na nossa história há cerca de 400 anos. É um método novíssimo, que  compete com o obscurantismo da magia, fábula e criatividade de mais de 50 mil anos! Basta ver por quantos anos acreditamos que a terra não era o centro do universo e quantos foram queimados por duvidar dessa verdade! Até hoje outras bobagens continuam sendo  difundidas e, de um modo ou de outro, sobrevivem entre nós. Por ser um método tão novo e, além do mais, muitas vezes contra intuitivo, não é valorizado. O pior é quando se vende gato por lebre. Isto é, se embrulha uma farsa em números, estatísticas, dando a impressão de algo científico (se tem número, é ciência!), quando se trata de pseudociência.

Qual a mensagem que eu gostaria de passar com este post? Pais devem buscar para seus filhos a medicina que tenha o melhor resultado (cura ou controle da doença), com menos efeitos colaterais (nem sempre é possível escapar de efeitos colaterais para se conseguir o resultado desejado), ao menor custo possível. Para isso, os pais devem conversar com os pediatras a respeito  das evidências científicas que suportem os argumentos de eficácia e  menores efeitos colaterais do tratamento proposto. Aceitar a prática de terapias não-científicas, tradicionais ou alternativas é, além de manter acesa a chama da irracionalidade, um incentivo  à fraude, ao logro e ao charlatanismo. Sem falar no mais importante que é expor o paciente, no nosso caso a criança, ao risco!