Arquivo | abril 2014

PÁSCOA

easter_1608816cDoutor, quantos ovos de chocolate meu filho pode comer?  Uma pergunta simples, feita por uma mãe preocupada com a saúde do seu filho. O que responder? Ou melhor, quem deveria responder? O pediatra rigoroso, cheio de argumentos científicos sobre os males do açúcar, os riscos da obesidade, essa epidemia que assola nossa espécie, o diabetes tipo 2 e tantos outros males? Ou, o pediatra mais flexível, tolerante, nem por isso despreocupado ou negligente com a importância da nutrição?

Por uma fração de segundo, enquanto pensava no que responder, me perguntei: mas, afinal de contas, do que se trata a Páscoa? Que festa é essa? Judeus comemoram sua fuga do Egito, deixando de ser escravos e iniciando uma longa jornada rumo à terra prometida. Cristão comemoram a ressurreição do Cristo, promessa da vida eterna. Em ambas as tradições, o que está sendo celebrado é a liberdade. Liberdade de existir como um povo sem viver submetido ao trabalho escravo e a libertação da morte, através de uma vida eterna. Mesmo para quem não tem uma fé religiosa, o simbolismo é de uma beleza ímpar, considerando que a liberdade é um valor humano inegociável. Ser livre é uma aspiração de todos nós e a Páscoa é a representação festiva dessa possibilidade.

O que é uma criança senão um ser extremamente dependente, do ponto de vista físico e radicalmente livre do ponto de vista da criatividade e inventividade. Crianças têm um único compromisso que é o do prazer, brincadeira, descobertas, de uma forma absoluta e ilimitada. Cabe a nós adultos, no intuito de contribuir para a formação de adultos saudáveis, impor limites e introduzir lentamente a frustração (usando o não). Mas, nos adultos, mora a criança que fomos e é importante que esta possa se manifestar, livremente. Não é possível fazer isso todas as horas. Mas, em determinados momentos, nada é mais prazeroso do que deixar a criança que somos, assumir o controle e, simplesmente, se divertir.

A mãe aguardava uma resposta e o filho, olhar fixo em mim, implorava por uma resposta favorável aos seus desejos. Me lembrei das minhas páscoas de criança. Havia uma busca aos ovos previamente coloridos por minha mãe. Ela e meu pai escondiam os ovos no jardim e tínhamos que achá-los. Haviam os ovos fáceis para os menores os difíceis para os maiores. Minha mãe, muito organizada, anotava o número de ovos escondidos. O que ela não anotava era o lugar onde cada um havia sido escondido e, não raro, voltávamos da caça com um ovo a menos! Depois da caça, um café da manhã em família. Ruidoso, alegre, animado, onde cada um se gabava de ter pego mais ovos ou o ovo mais difícil. Eram momentos alegres, momentos de encontro e libertação. Saímos do cotidiano e ingressávamos em um mundo onde havia magia ( o coelho que escondia os ovos) e amor (minha mãe que os cozia e pintava, na véspera e, junto com meu pai, os escondia).

Olhei para a mãe e seu filho e respondi: ele pode comer quantos ele aguentar. Afinal de contas, é Páscoa! Percebi um olhar apreensivo da mãe, mas, no seu rosto, havia um discreto sorriso. Ela ainda virou para o filho e, para manter uma certa “moral e bons costumes” disse para o filho: mas, sem exagerar, está bom! O garoto olhava para mim com os olhos brilhando e um lindo sorriso estampado no rosto. A criança que mora em mim sorriu de volta e, não tenho a menor dúvida de que o menino percebeu que quem tinha sorrido não era mais o doutor, mas o Roberto menino, colega, amigo, companheiro de ovos de chocolate!

Que as crianças irão comer ovos e se divertir nesta Páscoa, não tenho a menor dúvida. Que tal deixar a criança em cada um de nós, se soltar um pouco e brincar com nossos filhos, de igual para igual? Se lambuzar em ovos, rolar no chão e rir, fazer e receber cócegas, jogar jogos, ler livros, pular corda, se esconder, brincar de pique, boneca, carrinho e bola!

Desejo a todos uma Páscoa feliz, lembrando que celebramos,nesta data, a liberdade. Liberdade de sermos crianças, para que nossas crianças possam ser adultos livres.

 

ESTIMULAÇÃO PRECOCE

Estimulação precoceSempre fiquei pensando a respeito do termo estimulação precoce. Precoce, segundo o dicionário, é algo prematuro, antecipado, antes do tempo. Aí me dei conta, uma vez mais, que estamos vivendo um momento de encurtamento do tempo. Tudo precisa ser rápido. Rapidez traduz uma noção de eficiência, de performance e, numa sociedade onde a cultura de gerenciamento de empresas ” transbordou” para nossas vidas pessoais, nada mais desejável do que a velocidade.

Ninguém ainda ousou revelar, mas deve ter muita gente imaginando se não seria possível um curso de línguas intra uterino! Quem sabe colocar uns fones de barriga para o bebê ouvir uma outra língua? Claro que, em todas as nossas fantasias relacionadas com a qualificação dos filhos, existe o desejo, mais do que legítimo, de que sejam pessoas competentes e, portanto, com maiores chances de aproveitarem as melhores oportunidades que a vida tem para oferecer. Acredito que todos nós desejamos o melhor para nossos filhos. Mas, é preciso ter cuidado para não confundirmos o que é melhor para uma empresa ou organização, com o que desejamos para nossas crianças. Crianças não são funcionários da família.

Crianças são seres onde nem tudo pode, nem deve, ser acelerado. Qual um dos temores de toda grávida? Que o bebê  nasça antes da hora! Nascer antes da hora, um parto precoce ou prematuro, pode significar que o bebê corra risco de vida. Só porque chegou antes. Esse é um exemplo onde as consequências da precocidade ficam muito evidentes. Por que não imaginar que outras precocidades também possam trazer riscos sérios?

No afã de vermos nossos filhos se desenvolvendo plenamente, além de acharmos que dominar aptidões mais cedo é, sempre, melhor, também acreditamos, sem crítica, que a tecnologia será uma aliada fundamental nesse desenvolvimento antecipado. O que a industria está sendo capaz de oferecer em termos de bugigangas e geringonças que são “cientificamente” testadas e aprovadas para estimular o QI de um bebê de meses, ou até de uma criança de anos, é impressionante. Além de prometerem uma ilusão, a de anteciparem o que tem um tempo próprio para acontecer (como a gravidez tem), acabam podendo ter o efeito inverso, de criar crianças passivas diante de uma tecnologia que fascine. Fascina, sem estimular a imaginação.

Todo desenvolvimento intelectual e emocional vem da capacidade de termos nossa imaginação estimulada. E a imaginação se estimula a partir de um objeto ou situação,  vago, pouco específico, deixando para a criança a tarefa de criar suas especificidades. É assim que uma caixa de ovos pode virar tanto um caminhão, quanto uma ferramenta para modelar massinha, ou ainda, um bicho muito assustador que morde a perna dos adultos! Mas, não é só a presença de um objeto, desenho ou situação que produz, na criança a fantástica capacidade de criar. É preciso um ambiente de amor, acolhimento e profundo respeito pela criação infantil. Só assim, esta se sentirá segura para ousar e criar mais ainda. Nenhuma tecnologia sente carinho pelos nossos filhos!

Colocar o filho no colo, a partir de 6 meses de idade, para ler um livro, é um dos melhores estímulos à criatividade dos nossos filhos. Claro que, aos 6 meses não entendem nada do que lhes é dito. Mas, compreendem muito bem, o calor do corpo que os abraça e o tom da voz (sempre diferente, quando contamos histórias). Sentar com o filho no colo é esquecer do tempo (que pode ser de apenas 5 minutos) e entrar em um território mágico onde coisas fantásticas acontecem. Ler, com os filhos, é ensiná-los a não ter pressa. A sentir prazeres que não sejam imediatos, instantâneos. Além de ler, brincar com os filhos, se possível, usando sucata doméstica. Fios e fitas que deslizam pelo chão ou voam pelos ares, assumindo os mais diversos personagens. Caixas de diversos tamanhos, garrafas plásticas, copos de iogurte (lavados!), se transformam em cidades, carros e pessoas. E você ali, brincando junto, é o reforço positivo que seu filho precisa para ousar imaginar. Além de ser um reforço positivo para seu filho, sentirá prazer. Quanto mais prazer sentir, mais sua presença será percebida como um integrante do brincar e não como aquele que está ali, tomando conta.

Finalmente, a pergunta que deixo no ar- para que ter pressa? Pressa de andar, falar, desfraldar, ler, fazer contas. Cada criança tem seu ritmo, seu tempo. A vida tem um tempo e quem tem muita pressa, passa sem ver a paisagem! O bonito, numa estrada, não é a velocidade e sim a paisagem. O gostoso numa viagem é ter tempo… tempo para parar, olhar, tomar um café. Por que temos essa sabedoria quando viajamos e passamos o resto do tempo correndo?

Ao encerrar o post, gostaria de dizer que tenho profundo respeito pelo trabalho dos profissionais envolvidos em Estimulação Precoce. Estes profissionais trabalham com crianças que apresentam necessidades específicas e contribuem enormemente para o bom desenvolvimento destas crianças. Peguei o termo Estimulação Precoce emprestado, apenas para tentar provocar a reflexão se vale a pena termos pressa com quem precisa de tempo para se desenvolver?