Arquivo | janeiro 2014

A IMPORTÂNCIA DAS AVÓS

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm dezembro de 2012 escrevi um post sobre avós. Ontem, me despedi de uma, mãe, avó e bisavó de amigos, maravilhosa. Clara é o seu nome e ela me inspirou a falar um pouco mais sobre a importância das avós.

Avós podem ter muitos nomes, como Clara, Yvette, Lya, Sonia, Maria José, Gloria, Dulce, Shirley, Laura, Liana e tantos outros, além dos incontáveis e criativos apelidos. Mas todas as avós têm algo em comum: a menção do seu nome evoca uma emoção de carinho. Todas as avós produzem nos seus netos essa agradável sensação de serem amados. É claro que essas crianças são amadas pelos seus pais, mas, estes, com a dura tarefa de educar, colocam limites, impõem regras, exigem comportamentos. Não que avós também não participem desse processo de educar, mas, como se sentem menos obrigadas com o resultado final, se tornam mais tolerantes e flexíveis. O que, para as crianças é percebido como uma forma de amor muito gostosa. Existem coisas que as crianças só podem fazer na casa da vovó ou que só esta permite, como mexer no seu armário e brincar com suas roupas, comer algo fora do padrão nutricional, ficar acordado até mais tarde vendo TV ou mexendo no computador etc. Essa é uma função maravilhosa de fazer com que as crianças se sintam acolhidas e queridas.

Além desse acolhimento, as avós, por serem excelentes contadoras de histórias, fazem as crianças se sentirem pertencendo a uma história que não começa nelas, nem vai terminar com elas. Se sentir pertencendo, incluído, é algo fundamental para o ser humano. O oposto é o isolamento, a solidão, o desamparo, sensações que nenhum ser humano gosta de sentir. A avó narra para seus netos, a história dos que vieram antes dela, seus pais e, talvez, avós. Quem eram, o que faziam, de onde vieram, como se conheceram. Conta também a sua própria história. Onde e como era a casa em que morou quando criança, como era a escola, a cidade, a vida, naquele tempo. Tem sempre o capítulo de como conheceu o avô, com detalhes curiosos da personalidade de cada um, a chegada dos filhos, entre os quais o pai ou mãe do neto. Crianças ficam fascinadas com essas histórias e adoram ouvir como seus pais eram quando crianças. Principalmente a parte de comportamento inadequado, pirraças, birras com comidas. Ah! Você não imagina o trabalho que sua mãe dava para comer! Isso é um deleite para os ouvidos das crianças. Não raro a avó faz comparações entre o ontem e o hoje, manifestando preocupações com o amanhã. Pouco importa se as avós têm ou não razão nas suas avaliações. O que importa é que a criança recebe, através dessa narrativa, um sentido de continuidade, da vida. Algo me precedeu que, em parte, me faz ser como sou e algo virá depois de mim. Faço parte desse tecido chamado vida, onde contribuirei com o meu bordado, assim como os meus antepassados fizeram e minha avó me contou. Um dia, eu também contarei histórias para meus netos e eles vão bordar nesse tecido, formando novos desenhos, acrescentando cores e padrões.

A avó é, portanto, essa pessoa que liga, conecta, une e dá um certo sentido ao que pode parecer sem sentido algum, nossa existência. Fazem isso, sem escrever em blogs, sem filosofias, sem usar palavras difíceis. Fazem isso, quando reúnem a família em torno de uma mesa, quando celebram um Natal ou um Pessach, quando recebem os netos para dormir na sua casa ou os leva para passear. Esse sentido de conexão, de ligação do passado com o presente, dando uma perspectiva de futuro, não depende de classe social ou grau de instrução. É algo que todas as avós fazem, naturalmente.

Um dia elas partem. É um momento de tristeza que se mistura com a sensação de privilégio de poder ter recebido essa herança através das histórias contadas e do carinho recebido. Elas partem, sem ir embora. Seguem conosco, nas nossas memórias, afeto e histórias.

Na foto- Carolina e sua avó, comemorando o aniversário de 80 anos, contando histórias para todos. Foi seu último aniversário, mas as lembranças e histórias continuam vivas.

PRAIA, PISCINA, BANHO DE MANGUEIRA E… DOR DE OUVIDO!

otite3Continuamos no verão, e que verão! Uma festa para as crianças que se divertem ao ar livre, com uma energia invejável. Correm, pulam, gritam, uma algazarra que traz boas memórias da nossa infância. No post anterior, falei um pouco sobre a importância do protetor solar. Hoje, vou comentar sobre algo que acontece com maior frequência no verão: a otite externa.

A otite externa é uma inflamação do ouvido externo. Para que fique mais claro, sugiro que olhem o desenho no final do post. Verão que o ouvido é composto das seguintes partes:

– pavilhão auricular, conhecido como orelha;

– canal auditivo, que vai da orelha até o tímpano, chamado de ouvido externo, que pode ficar inflamado. Quando fica inflamado, o médico fará o diagnóstico de otite externa (nosso assunto de hoje);

– ouvido médio, que fica após o tímpano. Quando a inflamação é no ouvido médio, o médico fará o diagnóstico de otite média.

O canal auditivo, exatamente por fazer a comunicação entre o exterior (ambiente) e o tímpano, possui alguns mecanismos de proteção e defesa, naturais.  Na parte mais externa, perto da orelha, a pela do canal é mais grossa, com pelos e glândulas que produzem cerúmen (cera). O cerúmen e os pelos são barreiras protetoras do ouvido. Sua função é impedir a entrada de partículas e criar um ambiente que não seja favorável a outras bactérias que não aquelas que vivem normalmente no ouvido. Como em todas as partes do nosso organismo, convivemos com bactérias que são conhecidas como flora bacteriana normal. Muitas destas bactérias têm a função de proteger nosso organismo contra outras bactérias, mais agressivas. Além dos pelos, do cerúmen e da flora bacteriana, o canal auditivo vai ficando mais estreito à medida que vai se aproximando do tímpano. A pele que reveste o canal também se modifica, ficando mais fina e frágil, ao se aproximar do tímpano.

Essa longa explicação tem como objetivo facilitar a compreensão de como pode acontecer uma otite externa. A seguir, algumas das principais causas:

  1. Água- quando o ouvido externo fica muito tempo em contato com a água, a pele que o reveste, fica mais macia e frágil. Basta olhar para a pele das mãos, depois de um bom tempo dentro d´água. Fica bem diferente, toda enrugadinha, mole. A pele dentro do ouvido externo, principalmente aquela mais fininha, perto do tímpano, também sofre alterações e fica mais vulnerável à ação de bactérias trazidas pela água ou até das bactérias “amigas” que moram no ouvido externo e que podem se aproveitar de uma fragilidade da pele para se tornarem bactérias “inimigas”. Além desse efeito sobre a pele, a água pode quebrar a barreira natural do cerúmen, facilitando também a ação de bactérias. Quando as bactérias conseguem vencer essas barreiras, ocorre uma infecção e o organismo responde com uma inflamação. Como a pele perto do tímpano é muito fina, ela também é muito sensível. Assim, uma inflamação pequena pode produzir uma dor intensa, o que, geralmente, é o sintoma principal da otite externa. Depois de um dia divertido na praia, piscina ou brincando com a mangueira, uma noite com dor de ouvido, forte!
  2. Trauma- a limpeza excessiva ou agressiva do ouvido externo pode romper as barreiras descritas (principalmente o cerúmen) e facilitar a infecção com a consequente inflamação.
  3. Uso frequente de de objetos que ocluem (fecham) o ouvido externo, como por exemplo os fones auriculares, tampões de natação, podem alterar as barreiras descrita. Esta causa é menos frequente e é preciso que o ouvido externo fique fechado por muito tempo, muitas vezes, para favorecer uma infecção.

Como desconfiar que uma criança está com otite externa? Dor é o principal sintoma. Uma criança que está bem, sem febre e apresenta dor de ouvido, provavelmente tem uma otite externa. Se ela passou o dia na água, as chances aumentam. Além da dor, a criança pode sentir o ouvido coçar ou descrever uma sensação de entupimento. O diagnóstico certo, só pode ser dado pelo médico, após examinar o ouvido da criança. Enquanto a criança não for examinada pelo médico, os pais poderão dar um analgésico por via oral e fazer um pouco de calor sobre o ouvido, usando uma bolsa de água morna ou um pano passado a ferro, sempre verificando antes se não está quente demais, para evitar queimaduras.  Só o médico deve prescrever o tratamento específico.

Nestes dias de verão, para prevenir a otite externa, existem algumas sugestões “caseiras”:

– antes de entrar na água, pingar uma gota de óleo mineral em cada ouvido. A intenção é criar um filme que proteja o ouvido externo da ação da água;

– ao sair da água, pingar uma gota de solução saturada de álcool boricado a 3% (é preciso encomendar em farmácias de manipulação). A intenção é “retirar” a água que entrou no ouvido com um leve efeito antisséptico (contra as bactérias).

– não usar cotonete. O cotonete pode remover o cerúmen que é um protetor natural ou empurrar a cera mais para dentro do ouvido, criando um tampão. O cotonete só deve ser usado na parte externa da orelha. Lembrem-se que o ouvido tem um mecanismo auto-limpante!

Vejam o desenho que ilustra as partes do ouvido:

ouvido2

 

PROTETOR SOLAR

Verão, sol a pino, dias lindos, calorão, praia, piscina, banhos de mangueira! Sem Sunscreen_on_childdúvida, uma estação do ano colorida e alegre. Todo mundo com aquela “cor saudável”! Tudo isso é verdade, menos a parte da “cor saudável”. Por detrás de cada bronzeado excessivo, se esconde um potencial câncer de pele, dentro de anos. As estatísticas mostram que o número de casos de câncer de pele aumenta, de modo significativo. O principal responsável é a exposição ao sol, sem os devidos cuidados e proteção, desde a infância.

Os raios solares são radiações, essencialmente de três tipos: raios ultravioletas A (UVA), ultravioletas B (UVB) e ultravioletas C (UVC). Estes últimos não chegam a atingir a terra e são desviados ou absorvidos antes de entrarem na nossa atmosfera. Mas, os UVA e UVB chegam até nós e atingem nossas peles, podendo produzir queimaduras e alterações nas células que levem ao aparecimento de diferentes tipos de câncer de pele, na vida adulta. A pele da criança tem características que a torna mais susceptível ainda (mais finas, menos melanina- aquele pigmento que nos faz ficar brozeados e protege, de certa forma, a pele).

A pergunta que nós pais devemos nos fazer é: podendo tomar medidas simples e fáceis, temos vontade de evitar que nossos filhos venham a ter câncer de pele ou preferimos pensar que, apesar de sabermos a respeito dos riscos, isso não vai acontecer com nossos filhos (e fazemos pouco ou nada para protegê-los)? Não tenho a menor dúvida de que todos os pais do mundo, diante de um risco imediato, tomariam todas as medidas necessárias para evitar um problema maior. Dou um exemplo extremo: você entra no quarto do seu filho de três anos e o vê sentado naa janela, balançando as perninhas. O que você faria?

a- sairia do quarto para não atrapalhar a brincadeira do seu filho?

b- chamaria seu filho e diria para ele sair porque é muito perigoso ficar sentado na janela?

c- se aproximaria lentamente, sem que o seu filho percebesse ou levasse um susto com a sua aproximação e o pegaria firmemente, tirando-o da janela?

Estou seguro que todos responderiam  letra c. Ninguém ficaria preocupado se o filho gostou ou não de ser tirado da janela, se chorou, fez escândalo etc. O risco era tão grande que não havia espaço para negociação ou conversa. A prioridade era acabar com o perigo, tirando o filho da janela. Pois bem, quando se trata de um problema de igual gravidade, só que no futuro, nosso comportamento se torna diferente. O melanoma, um dos tipos de câncer, tem uma taxa de letalidade altíssima. Isto é, quem apresenta o melanoma tem pouquíssimas chances de sobreviver. Muito parecido com quem cai de uma janela. Mas, nosso comportamento enérgico, firme e rápido para eliminar o perigo da janela não se repete quando se trata de evitar um perigo futuro. Isso vale não só para a a prevenção do câncer de pele, como para todo tipo de prevenção de doenças da vida adulta, evitáveis através de hábitos saudáveis desenvolvidos na infância, como a obesidade, diabetes, infarto, avc etc.

Voltando ao sol e à proteção da pele, o que pode ser feito? A seguir,  algumas dicas para os pais:

  1. Bebês até  seis meses de idade- evitar a exposição ao sol nos horários entre 9 e 17h. Ao sair à rua, usar chapéu  e proteger o bebê com uma sombra.
  2. A partir dos 6 meses, usar protetor solar, exceto nas mãos e rosto. Continuar com a proteção do chapéu, roupas e sombra.
  3. Lembrar que, mesmo na sombra, os raios solares são capazes de queimar porque refletem no chão e nas superfícies. Portanto, sempre há alguma exposição aos raios solares, mesmo na sombra.
  4. Adolescentes tendem a resistir ao uso do protetor porque desejam um bronzeado intenso. Pais não devem temer a reação dos adolescentes e precisam impor certas “regras” para a exposição ao sol (não esquece de passar o protetor, leva o chapéu, usa uma camiseta). Também devem incluir, nas conversas familiares, temas de prevenção de doença, falando sobre câncer de pele. Em um post prévio, publiquei uma foto impressionante demonstrando o efeito do sol sobre a pele, Adolescentes tendem a gostar de exemplos visuais.
  5. Adultos devem dar o exemplo, usando o protetor solar, diariamente. Assim como aprendemos e ensinamos nossos filhos a escovarem os dentes após cada refeição, o uso do protetor solar deve se tornar um hábito diário na vida das pessoas.

A esta altura do blog, ou você está convencido(a) da necessidade do uso do protetor solar, ou já parou de ler! Resta saber qual o FPS e como usar o protetor.

O FPS – Fator de Proteção Solar – é um indicador de quanta proteção aquele produto oferece. Esse número é obtido em laboratório, expondo-se a pele com e sem protetor a uma lâmpada que “imita” os raios solares. Um protetor solar com o fator 15, permite a passagem de 1/15 dos raios solares. Lembrando da matemática do segundo grau, 1/15 = 0,067, arredondando, 0,07. Ou, dito de outra forma, 7 % dos raios passam, o que corresponde a 93% de proteção. Um protetor com o fator 30, seria 1/30= 0,033, arredondando, 0,03 ou 3% de raios que passam, conferindo uma proteção de 97%. Acabamos de ver que um protetor  com fator 30 NÃO  protege o dobro que um com o fator 15!  No final do post, coloquei um gráfico, em inglês, que mostra quanta proteção cada fator dá. Vejam que o 60 não é o dobro do 30!

Mas, não é apenas o FPS que deve ser levado em conta, para garantir uma boa proteção. A seguir dois pontos muito importantes, que, frequentemente, são esquecidos:

  1. A aplicação deve ser feita, no mínimo, meia hora antes da exposição ao sol. O ideal é aplicar o protetor ao sair de casa e não ao chegar na praia ou na piscina. Além disso, o protetor deve ser reaplicado a cada duas horas, independentemente do que diga o rótulo do produto. Não só o produto sai pela transpiração e banho, como a própria luz solar o inativa.
  2. A quantidade recomendada é muito maior do que aquela que habitualmente usamos. Para se ter uma ideia, um frasco de 120ml de protetor, se utilizado adequadamente por um adulto, deveria ser suficiente para entre duas e quatro aplicações. Se uma pessoa ficar exposta ao sol por 4 horas, seria um frasco por dia! Quando aplicamos bem menos do que o recomendado, o fator de proteção solar cai, porque aquele fator que está no protetor foi testado para a quantidade recomendada. Por esse motivo que, apesar de, na curva do gráfico, a diferença entre a proteção dos diversos fatores ser pequena, na prática, acaba sendo mais relevante porque passamos menos protetor do que deveríamos. Uma dica é fazer uma aplicação dupla de protetor. Isto é, passar duas vezes, a cada vez que formos aplicar o protetor, principalmente nas crianças.

Como dito acima, neste post, nosso objetivo, como pais, deverá ser o de desenvolver, em nossos filhos, o hábito do uso do protetor solar, diariamente e não só nas férias ou  nos dias que vão à praia, piscinas ou passeios ao ar livre. Do mesmo modo que exigimos que escovem os dentes, devemos ser rigorosos com o uso do protetor. Todo esse esforço de introdução de um hábito saudável tem a sua recompensa: reduzir, em muito, as chances de um câncer de pele, na vida adulta.

Dá para se divertir e prevenir, ao mesmo tempo.Um bom verão para todos!

Abaixo, o gráfico que mostra o % de proteção (eixo vertical) em função do fator de proteção (eixo horizontal).

curva fps