Arquivo | novembro 2013

A IMPORTÂNCIA DA RELAÇÃO COM O PEDIATRA.

pediatraEm um mundo onde, graças à tecnologia, tempo e espaço estão cada vez mais curtos, podemos ficar com a impressão de que tudo pode (e deve) ser rápido, objetivo, prático. A lógica de que tempo é dinheiro acaba “contaminando” a vida e o que seria um modelo econômico eficiente (o mercado), extrapolou para a vida, como um todo. Ocorre que o tempo não é sinônimo de dinheiro, mas é o tecido, tela ou pano de fundo onde cada um vai imprimir a sua vida. E a vida nos dá sinais de que tem lá seus tempos, que não mudam, por mais rápido que fiquem os computadores, carros e aviões. Uma gravidez continua levando nove meses, uma criança leva um ano para andar e um resfriado, uma semana para ficar bom!

Mas, o que tem essa introdução a ver com o tema do post de hoje? Na medida em que tudo ao nosso redor fica mais rápido, o mesmo acontece com nossas relações. SMS, Tweeter, Facebook, e-mail, agilizam e otimizam nossas comunicações. Esse é o lado bom da tecnologia. Mas, podem nos fazer crer que tudo é otimizável, como, por exemplo, uma consulta médica. O que passa a importar é a capacidade do médico chegar, rapidamente, a um diagnóstico e prescrever o remédio correto, de preferência que aja em poucas horas! Nesse cenário, para que estabelecer um vínculo, uma relação, com o pediatra? O melhor pediatra é aquele mais perto, com menor espera e maior índice de acerto. Claro que todos esses atributos são desejáveis. Mas, não dão conta de um mundo de questões que surgem no crescimento e desenvolvimento das crianças.

Crianças, como todos os seres humanos, são indivíduos únicos, pertencendo a uma família única, com uma história e tradição, únicas. Olhar para uma criança, exclusivamente, através do conhecimento de um livro de medicina é não enxergar uma série de fatores que influenciam na sua saúde. Se não fosse verdadeira essa minha afirmação, já teríamos programas de computador onde colocaríamos a idade, sexo, sinais e sintomas da criança e receberíamos um diagnóstico e tratamento, impressos, em segundos! Isso não é possível exatamente porque nenhuma criança no mundo se encaixa perfeitamente em um modelo estatístico puro. Medicina é, portanto, uma atividade fortemente apoiada na ciência, nas evidências demonstradas de forma rigorosa, mas que envolve um lado artesanal do médico. Um dos perigos do fetiche da ciência (e sou um incansável defensor do método científico rigoroso) é tentarmos encaixar nossos pacientes nos protocolos padrão, desenvolvidos através de excelente pesquisa. O que um bom médico deve fazer é um pouco diferente. Utilizando os protocolos ou conhecimentos existentes, deve adaptá-los à individualidade de cada um. Para esta criança, posso esperar mais um dia antes de dar o remédio tal; para aquela, preciso intervir mais cedo. Ou ainda, com esta família posso “negociar” mais alguns dias sem grandes intervenções, com aquela, é preciso um tipo de conduta diferente.

Esse lado artesanal da medicina só se consegue quando se tem uma relação com o paciente e a sua família. Quando são conhecidos e já acumulamos experiência suficiente para entender ao menos parte da individualidade da criança e sua família. Além disso, existem muitos aspectos em pediatria que não se referem a doenças. O pediatra interage, frequentemente, com a família em questões de educação e comportamento. Estas não estão nos livros de medicina clássicos e não possuem protocolos. Como conversar sobre esses assuntos, sem ter um conhecimento, uma relação de confiança mútua, com a família? Impossível!

O que estamos vivendo hoje, é uma desvalorização dessa relação com o médico. Cada vez que uma criança é levada a um pronto atendimento pediátrico, público ou privado, será visto por um médico que, desconhecendo a criança e a família, aplicará um protocolo padrão. O resultado será, inevitavelmente, exames pedidos sem necessidade e mais remédios prescritos, do que o necessário. O médico que está vendo a criança somente aquela vez, não tem a segurança que uma relação pode dar para adequar o seu conhecimento científico àquela criança. Os pais, por sua vez, passam a ficar menos tolerantes ou seguros com alguns sintomas e correm para o pronto atendimento, imediatamente. Não possuem um pediatra em quem possam confiar, para lhes orientar e evitar o excesso de exames e remédios que pode ser prescrito em um modelo onde não há uma relação, apenas um atendimento.

Eu sei que, muitas vezes, o pronto atendimento é muito mais conveniente. Não precisa marcar consulta, a espera é razoável e os médicos bons. Mas, se ficarmos somente no aspecto da conveniência, perdemos algo fundamental em medicina que é a relação com o médico. Essa relação de confiança é o que permite pensarmos em saúde de forma mais ampla e abrangente e não apenas na cura das eventuais doenças que surjam ao longo da vida. Curiosamente ou felizmente, saúde interessa e motiva a todos. Vejo aqui pelo blog que os temas que abordam doenças fazem menos sucesso do que os que falam de aspectos mais amplos da saúde. A pergunta que eu não sei responder é: se existe o interesse, por que não estamos investindo em construir relações médico- paciente? Por que não exigimos uma consulta (pública ou privada) menos corrida, não focada somente em sinais e sintomas de doenças? Por que estamos indo cada vez mais nos pronto atendimentos e menos nos consultórios?

Envie suas respostas e comentários para o blog. São sempre muito bem-vindos.

DIABETES

diabetic-child450x300No dia 14 de novembro, foi celebrado o Dia Mundial do Diabetes. Este dia, tem como objetivo, chamar a atenção para uma doença que é,  no início, silenciosa, mas que produz danos irreversíveis para a saúde quando não diagnosticada  a tempo. Todo ano, no mundo inteiro, um tema específico sobre o Diabetes é enfocado. Este ano o tema foi “Diabetes: Proteja nosso Futuro”, dando ênfase à informação, educação e prevenção. Como o tema fala de futuro e como o diabetes também afeta crianças, me pareceu mais do que justificada a escolha do tema, para este post.

Sem entrar em muita “ciência”, existem dois tipos de Diabetes:

  • Diabetes tipo 1 – onde, por razões que não são completamente conhecidas, o pâncreas deixa de produzir insulina. A insulina é um hormônio diretamente relacionado com o metabolismo do açúcar.
  • Diabetes tipo 2- onde, apesar do pâncreas produzir a insulina, as células não respondem à sua presença. É como se as células do nosso corpo “resistissem”à ação da insulina. Por isso, também é chamado de diabetes insulino-resistente.

Em ambos os casos, a consequência é um aumento da taxa de açúcar no sangue (glicemia).

Crianças são acometidas pelo Diabetes tipo 1, principalmente entre os 4 e 6  e 10 a 14 anos de idade. Infelizmente, o diagnóstico muitas vezes só é feito em um atendimento de emergência com a criança apresentando um quadro de mal estar, prostração (caído, sem ânimo) e vômitos. Nesta situações, muitas vezes a criança já está com um quadro mais grave, chamado de cetoacidose diabética. Por esse motivo é muito importante que os pais fiquem atentos aos seguintes sintomas que podem estar relacionados com o Diabetes tipo 1:

  • Sede excessiva. No verão, fica mais difícil se perceber o que seria uma sede excessiva, mas se o seu filho bebe água ou líquidos frequentemente, em razoáveia quantidades, fique atento e veja se ele apresenta um dos próximos sintmas;
  • Fazer xixi toda hora. Se a criança vai ao banheiro toda hora, acorda várias vezes à noite para fazer xixi ou, se volta a fazer xixi na cama, é um sinal de alerta. O que pode confundir os pais é que, como o filho está bebendo muito líquido, é “normal” que faça muito xixi. O importante é constatar que mudou o padrão ou frequência. Uma criança que não acordava à noite e passa a acordar para fazer xixi, deve chamar a atenção dos pais;
  • Emagrecimento. Se uma criança está bebendo muito líquido, fazendo muito xixi e emagrecendo sem outra causa conhecida, é fundamental levá-lo ao pediatra e comentar esses sintomas. No caso do Diabetes, é melhor pecar por excesso, do que deixar a doença evoluir, silenciosamente. Algumas crianças, na fase inicial do Diabetes, comem mais do que comiam e, mesmo assim, emagrecem.

Portanto, polidipsia (beber muito), poliúria (fazer muito xixi) e emagrecimento, são três sintomas que, juntos, justificam uma consulta médica.

O Diabetes tipo 1 tem controle, com o uso de insulina. Quando não controlado, produz efeitos muito ruins sobre o corpo: doença renal, doença nos olhos, podendo chegar à cegueira, perda de sensibilidade das extremidades, doenças das artérias, algumas dessas levando a amputações. Por outro lado, quando diagnosticado na fase inicial e o tratamento é seguido de forma rigorosas, a criança e, depois, o adulto, poderão viver uma vida sem nenhuma dessas consequências. Não é fácil conviver com o Diabetes e a família tem um papel fundamental no apoio, estímulo e suporte à criança que tenha essa doença crônica. É preciso ser carinhoso e firme, ao mesmo tempo, o que nem sempre é fácil. Relaxar e deixar a criança fazer ou comer o que quiser pode ser o passaporte para uma vida adulta de péssima qualidade. Por outro lado, o rigor que não acolhe a revolta da criança e do adolescente, só aumenta o sentimento de “injustiça” e estimula um comportamento de burlar a prescrição médica e nutricional.

Já o Diabetes tipo 2 não acomete crianças, O que se está verificando é que , cada vez mais, o diagnóstico de Diabetes tipo 2 está sendo feito mais cedo, em adolescentes. Mas, se o Diabetes tipo 2 não é uma doença da infância, sua prevenção é mais eficaz quando feita na infância.

Como prevenir o Diabetes tipo 2 já a partir da infância? Com uma alimentação type-2-diabetes-childrensaudável, não industrializada, sem açúcar refinado acrescentado à dieta do dia a dia. O açúcar refinado está nos sucos, bebidas achocolatadas, iogurtes, refrigerantes, balas, doces, biscoitos, sorvetes etc. Mas, não é só nas comidas doces que o açúcar refinado está presente. Muitos salgadinhos ou comidas industrializadas levam açúcar na sua formulação. Portanto, se os pais não se convencerem de que, ao dar a comida rápida, fácil, dentro da embalagem mais atraente que possa existir, contendo um brinde, estarão definindo um vida adulta com sobrepeso e Diabetes tipo 2 para seus filhos, não haverá prevenção possível. Muitas vezes, os pais já  comem de forma menos saudável e e este modo de se alimentar passou a ser o “normal” da família. Se a família inteira não se envolver em um mudança de hábitos, o futuro dos filhos é certo e não é bom. Hoje, no Brasil, já somos 52% da população com sobrepeso. De onde vieram esses quilos a mais? Dos nossos hábitos “modernos” de comer. Precisamos voltar ao prato de comida do tempo de nossos avós!

Não existe solução mágica. Saúde, como educação, é um processo contínuo, trabalhoso, diário. Saúde como educação, exige o exemplo dos pais, mais do que um belo discurso. E, sempre,  com muito carinho e brincadeira.

obs- na foto de cima, vemos um menino, com diabetes, medindo o açucar no seu sangue, com uma “caneta” específica para esse fim.

MANHÃ DA GLOBO

marcas_radio_globo_horiz_azul_redeTodas as quintas-feiras, entre 11:30 e 12h, participo do programa do Roberto Canázio, na  Rádio Globo, 89,5 FM //1220AM. No quadro Nossas Crianças, um assunto de interesse geral é abordado. Para isso, contamos com a participação dos ouvintes da Rádio Globo e, agora, estou pedindo sugestões aos leitores do blog. Enviem os temas que gostariam que fossem comentados na Rádio Globo. Lembrem-se que deve ser um tema de interesse o mais geral possível e que possa ser abordado em um curto espaço de tempo.

Abaixo, os últimos temas que foram abordados:

Crianças e animais- 

Dia das crianças- 

Precisa esterilizar bicos e mamadeiras? 

Pegar bebê no colo, mima? 

Picadas de insetos- 

Diabetes- 

Mande sua sugestão de tema para o Nossas Crianças, no Manhã da Globo, às quintas-feiras.  Não posso garantir que toda sugestão irá ao ar, mas, todas serão muito bem-vindas.

A IMPORTÂNCIA DO COCÔ!

Hesitei um pouco antes de decidir abordar o tema do cocô dos bebês e crianças. Muito baby-diaper-changeprovavelmente essa minha hesitação tem um componente cultural de não falarmos sobre o corpo e suas funções com naturalidade. É como se o tema das secreções e excreções fossem “feios”  ou “sujos”. Se o Roberto DaMatta, brilhante antropólogo, lesse o meu blog, o que não é o caso, talvez pudesse nos brindar com um comentário ou post a respeito dos aspectos antropológicos do corpo e seus produtos.

Apesar desse pudor coletivo que todos temos, todas as mães do mundo se surpreendem com o fato de que se tornam observadoras atentas do cocô de seus filhos. O fato é que o bebê é um ser que se comunica com o mundo. Fala vários “idiomas” que nós já falamos um dia, mas, infelizmente, esquecemos! E, ainda não fala o nosso. Assim, a comunicação se dá por uma série de sinais codificados e cabe às mães a dura tarefa de traduzir o que está sendo “dito”  pelos filhos em algo que seja compreensível para as demais pessoas. Não raro, as mães conseguem interpretar um choro como sendo de fome e outro de frio ou desconforto. Um barulho balbuciado é alegria e prazer, perninhas que se movimentam de um jeito é excitação porque o papai chegou e quando se movimentam de outro é um cocô prestes a sair. À medida que o bebê vai crescendo, seus “idiomas” vão ficando mais conhecidos. Não só porque os pais já convivem há mais tempo com o filho, mas, também, porque este começa a nos ajudar, apontando para as coisas, balançando a cabeça quando não quer algo, jogando um objeto no chão ou afastando nossa mão que se aproxima com uma fruta que não é a sua preferida.

Os pais de bebês pequenos, têm uma pergunta constante e permanente que os atormenta: meu bebê está bem? Uma pergunta absolutamente normal, instintiva. Mas, diferente de outros animais, pensamos. Aí surge a segunda pergunta, geradora de uma certa insegurança “básica”: como saber que está tudo bem? Esta pergunta pode ter variações mais ou menos produtoras de ansiedade, como:  e se eu não souber que algo errado está acontecendo com meu filho? São essas perguntas que nos fazem ficar intérpretes profissionais do que nossos filhos nos comunicam.

Entra em cena, o cocô! O cocô é algo visível, não subjetivo, à espera da observação analítico-interpretativa dos adultos. O cocô fala!  Na maioria das vezes, tranquilizando as mães. Se a criança está fazendo cocô é porque está se alimentando. Se faz todo dia, na consistência conhecida, cor esperada e frequencia habitual, o bebê deve estar bem. Nada como um padrão para tranquilizar os seres humanos. Quando as coisas são conhecidas e se repetem, nos sentimos mais seguros. Temos uma sensação de maior controle sobre a situação e isso nos dá conforto. A questão é que nem sempre, sair de um padrão conhecido signifique que algo não vai bem. Pode ser que sim, mas pode ser que não. Vivemos, como seres humanos e, principalmente pais, oscilando entre a busca de padrões e o fato de que a vida não tem padrões. O único padrão que a vida tem é o de variar!

Na tentativa de ajudar os pais a se sentirem mais tranquilos, comento alguns apectos do que o cocô pode ou não estar querendo nos comunicar.

  1. Cor- todo mundo sabe que as mulheres são capazes de descrever cores absolutamente inexistentes para nós homens. Mães conseguem descrever a cor do cocô de seus filhos com raríssima precisão e um nível de detalhamento impressionante.  A variação do marrom, amarelo e verde é inteiramente normal. Sinaliza apenas a velocidade com que o alimento passou pelo intestino.Costuma haver uma certa preocupação quando o cocô se apresenta mais esverdeado. Quando passa um pouco mais rápido, aparece a cor verde ou o tom esverdeado. Portanto, não se preocupem nem com o tom verde no cocô de seus filhos, nem com variações de uma fralda para outra. Importante lembrar que o recém nascido ainda elimina mecônio que é bem escuro, com uma consistência muito diferente, lembrando piche. Mas, algumas cores devem ser consideradas como inesperadas, atípicas: vermelho, preto e branco. Estas devem ser informadas ao pediatra, lembrando que alguns alimentos modificam a cor, como beterraba e medicamentos como ferro (escurecendo bem a cor). Resumindo: variações entre marrom, amarelo e verde, são inteiramente normais e, isoladamente, não significam nada de especial.
  2.  Frequência- um bebê pode fazer várias vezes ao dia e uma vez em vários dias e ser inteiramente normal. Não há uma regra para quantas vezes ao dia, ou de quantos em quantos dias, um bebê deve fazer cocô. Não devemos falar em constipação usando apenas o critério de número de dias que um bebê leva para fazer cocô. Mais importante que os dias é a consistência que abordarei a seguir. Resumindo: variações de frequência (muitas vezes no mesmo dia e uma vez em muitos dias) não significam, em princípio, nada de especial ou preocupante.
  3. Consistência- bebês costumam fazer cocô com uma consistência que chamamos de líquido-pastosa. Para os padrões de adultos, é um cocô bem mais mole, o que faz com que algumas mães, principalmente aquelas que amamentam ao seio, imaginem que seus bebês estão com diarréia. Alguns bebês que fazem cocô a cada mamada e, ainda por cima “mole”, podem dar a impressão (falsa) de que estejam com diarréia. A consistência é um fator mais importante do que a frequência para se pensar em constipação. Um bebê que fica quatro dias sem fazer nada e acaba fazendo um cocô pastoso, definitivamente não tem constipação. Um cocô endurecido ou em bolinhas (como um cabrito) merece ser comunicado ao pediatra. Resumindo: o cocô de bebês é muito menos consistente do que o de adultos, sendo inteiramente normal que se apresente de forma líquido- pastosa.
  4. Cheiro- o odor do cocô vai depender da alimentação e sua digestão, além  da flora bacteriana que habite o intestino. Assim, à medida que novos alimentos vão sendo introduzidos a a flora normal e saudável vai se modificando, o odor vai variando. Resumindo: raramente o cheiro é um indicador de que algo não vai bem, podendo variar muito.

É preciso lembrar que, com a introdução de alimentos e variação da flora bacteriana intestinal normal, a cor, frequência, consistência e cheiro, irão variar. Alguns alimentos influenciam mais a cor, outros a frequencia e consistência, bem como o cheiro. Alguns remédios também variam a cor (como o ferro).

Espero, com este post, contribuir para o aumento  da compreensão dos pais,  de um dos idiomas que bebês e crianças “falam”.

Aguardo comentários, sempre bem-vindos.

A SAÚDE DOS PAIS

outubro rosaQuando escrevo um post , tento me colocar no lugar de alguém que está lendo. Me pergunto sempre sobre que tema deve interessar mais às pessoas? Tento evitar escrever só sobre doenças e, quando o faço, busco uma abordagem que seja clara e objetiva. Acho um horror essa coisa de complicar os assuntos para parecer que “entende muito”. A simplicidade tem uma beleza ímpar e, nem sempre, é fácil transformar em simples um tema complexo.

Mas, invariavelmente, escrevo sobre as crianças ou as relações dos pais com seus filhos. Muito raramente faço um comentário sobre a saúde dos pais. Hoje, pensando no outubro rosa (mês da prevenção do câncer de mama) e no novembro azul (prevenção do câncer de próstata), me perguntei se, como profissional da saúde, eu não deveria fazer um comentário, por menor que fosse, sobre esses dois temas? Aí, me dei conta de que o comentário poderia ser mais amplo, falando sobre a saúde dos pais.

O que queremos para nossos filhos? Para sintetizar , o melhor possível! Quando pensamos nesse melhor, muito provavelmente nos vêm à cabeça coisas como: saúde (sempre!), uma boa educação, que escape dos riscos da nossa época (violência, drogas etc.), que saiba fazer boas escolhas na vida (nem sempre as mesmas que faríamos!) e, finalmente, que seja uma pessoa feliz . Para podermos oferecer o melhor possível para nossos filhos, nos esforçamos, trabalhamos (com o risco de nos ausentarmos mais do que o desejável, deixando o carinho para um segundo plano), damos duro para conquistarmos o que pode ser comprável e fazemos o melhor que conseguimos para dar afeto e fortalecer a sua auto-estima. Mas, quantos de nós pensa que a nossa presença na vida dos nossos filhos talvez seja o “melhor de todos os melhores”, para eles?  Quantos de nós, aproveitamos o fato de sermos pais, para cuidarmos um pouco mais de nossa saúde, por amor aos nossos filhos?

Não raro, atendo pais que vivem adiando suas questões de saúde. A falta de tempo, mãe de todas as desculpas, justifica o descuidado que temos com a nossa saúde. Em um mundo super objetivo, quantificado, medido, fortemente influenciado por uma lógica de mercado, será que não há investimento mais rentável do o tempo dedicado à nossa saúde? De que adianta trabalhar todos os dias até tarde, chegar em casa cansado, mal ver os filhos acordados, pensando em poder pagar a boa escola, o plano de saúde e, talvez, umas férias no verão, se nos expomos ao risco de enfartarmos jovens?  Vamos supor uma situação fictícia. Enfartamos, morremos e voltamos para perguntar aos nossos filhos se preferiam que estivessemos vivos ou se estavam felizes por poder continuar a estudar na boa escola, fazer o curso de inglês e viajar uma vez por ano, usando o dinheiro do seguro de vida que fizemos? Não tenho a menor dúvida de que nossos filhos sempre prefeririam a nossa presença! Então, por que não aproveitamos para cuidarmos melhor da nossa saúde? Não tenho a resposta. Deixo a pergunta no ar.

Para ajudar a sair do teórico e irmos para a prática, deixarei uma sugestão, divida em cinco grandes capítulos, onde poderemos mudar nossas vidas, contribuindo fortemente para a melhoria da nossa saúde:

  1. Alimentação– cuidar da alimentação contribui para prevenirmos várias doenças como: hipertensão, enfarte, diabetes tipo 2, vários tipos de câncer, obesidade, doenças das articulações. Comer menos gorduras animais, açúcar refinado e mais legumes, verduras e frutas, é um bom começo. Evitar comida industrializada e preferir os alimentos que não possuem embalagens atraentes e rótulos explicativos. Comida, como nossos avós chamavam: um prato com alimentos de várias cores.
  2. Exercícios físicos- fazer ao menos 150 minutos de exercício aeróbico e duas sessões de musculação, por semana, ajudam no controle do peso, no fortalecimento da auto estima, reduzindo também  a necessidade de medicamentos para hipertensão e diabetes do tipo 2. Além dos benefícios físicos visíveis, os exercícios contribuem para o bem estar emocional das pessoas, dissipando o estresse e dando mais ânimo e vigor para o viver.
  3. Vida afetiva- estabelecer vínculos afetivos com a família e amigos, tem uma influência direta na saúde das pessoas. A troca de afeto contribui para a redução da ansiedade e colabora na prevenção da depressão. O isolamento (ou blindagem) que uma vida quase que exclusivamente  profissional (trabalho-cama-trabalho) produz, cobra um preço caro na saúde emocional e física das pessoas. Pessoas que vivem de forma afetiva, sem pudor de sentir emoções, em geral, são mais felizes.
  4. Vida “interior”- para uma saúde equilibrada, é preciso um tempo sem fazer nada. Um tempo que pode ser curto, onde os pensamentos ficam mais soltos. É o que os gregos chamavam de ócio. Dessa palavra veio a palavra escola! Os gregos estavam convencidos (e, provavelmente certos) de que uma cabeça cheia não pode pensar coisas novas. Portanto, é preciso “desligar” um pouco, “esvaziar” a cabeça, para podermos ser mais criativos e lúdicos. Sem criatividade a vida fica muito chata, repetitiva, mecânica. Esse momento de ócio pode ser conseguido de várias maneiras: ficar quieto uns minutos, olhar um nascer ou pôr do sol, meditar, fazer yoga, ter alguma religiosidade etc. Não há uma fórmula, roteiro ou regras para se conseguir esses momentos de serenidade. Cada um encontrará o modo que mais lhe agrada.
  5. Sono- em um mundo onde tempo é dinheiro, dormir vira um desperdício! Pois bem, o sono é uma das atividades humanas mais importantes e, ao mesmo tempo, mais desprezadas. Sono de qualidade produz equilíbrio hormonal, regeneração celular, relaxamento, bom humor, capacidade de concentração e aprendizagem, entre outras coisas. Pensem que, toda vez que “economizarmos” uma hora do nosso sono, estaremos impondo um “custo” à nossa saúde que poderá nos levar à “falência”.

Claro que, no meio destas ações, será importante cuidar da prevenção também através de uma consulta médica periódica, vacinação (adulto também precisa de vacinas!) e alguns exames. Como saímos do outubro rosa, nunca é tarde para que as mulheres façam uma visita ao ginecologista para um exame clínico das mamas. Para os homens, novembro azul novembro azulnos lembra da importância da prevenção do câncer de próstata, através de uma visita ao urologista para a realização do toque retal.

Acabou ficando um post longo! Para resumir, diria: se queremos o melhor para nossos filhos, devemos cuidar de nossa saúde como um ato de amor por eles. Quanto mais tempo estivermos vivos e saudáveis com eles e menos trabalho dermos, na nossa velhice, melhor será a vida de nossos filhos. Saúde!