Arquivo | outubro 2013

EM DEFESA DAS BACTÉRIAS

bacteriaVocê achou o título do post estranho? Como pode um pediatra escrever algo a favor de bactérias? Afinal de contas, bactérias são muito perigosas e produzem doenças. Algumas delas, sérias e graves. Como em quase tudo que nos cerca, uma minoria de “maus elementos”, acaba contaminando (sem trocadilho) uma maioria pacífica, ordeira, competente e de boa índole. Assim é com as bactérias também. Uma meia duzia de bactérias “más”, cria uma imagem deformada de milhares de outras que convivem conosco, nos ajudando a viver melhor.

Temos, no nosso corpo, algo como 10 vezes mais bactérias do que células humanas! Claro que ninguém contou esse número, mas é uma ordem de grandeza, fruto de estudos que estão sendo feitos a respeito das bactérias que convivem conosco. Para que se tenha uma ideia da importância do tema, desde 2007 o Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), já investiu US$157 milhões no Projeto do Microbioma Humano. Este projeto envolve mais de 200 pesquisadores, de 80 universidades ou instituições científicas. Ninguém gasta tempo e dinheiro para estudar algo que não tenha interesse ou relevância. Portanto, esse microbioma (nome complicado para falar das bactérias que moram conosco) parece ser importante para a nossa saúde. Desconhecíamos que temos trilhões de amiguinhos trabalhando para nosso bem estar e, ao se ouvir o nome bactéria,  só pensávamos em lavar as mãos e passar um “desinfetante” em tudo, para acabar com esse perigo invisível e garantir a nossa segurança!

Nascemos sem bactérias e, já no parto, tomamos nossa primeira grande “dose” de bactérias. Quando o parto é cesáreo, a quantidade e qualidade das bactérias desse primeiro momento é diferente e alguns pesquisadores acreditam que, por este motivo, estas crianças (nascidas de parto cesáreo) podem ter uma chance maior de desenvolver alergias e/ou obesidade. Nossa colonização por bactérias continua através do contato com a pele e leite de nossas mães, bem como o contato com outras pessoas.  Em torno dos 3 anos de idade já fizemos todos os amiguinhos microscópicos que se pode fazer.

Essas bactérias amigas, fazem coisas muito importantes para nós. Elas (as bactérias), nos ajudam na digestão de vários alimentos, através da produção de enzimas que não produzimos. Contribuem para que retiremos energia (calorias) de forma mais eficiente dos alimentos.  Bactérias amigas produzem vitaminas e participam do desenvolvimento e manutenção do nosso sistema imunológico (o que nos protege contra doenças).  Existe mais de um mecanismo pelo qual as bactérias, principalmente as intestinais, ajudam a manter nosso sistema de defesas saudável.

Estudos comparando crianças criadas em fazendas, com outras da cidade, mostraram menos asma, rinite e eczemas nas do campo. Uma das hipóteses levantadas é a de que, por entrarem em contato com uma diversidade maior de bactérias, haveria um estímulo positivo do sistema imunológico. Alguns autores passaram a chamar a explicar o número maior de casos de alergia em crianças como sendo uma obsessão cultural pela limpeza e desinfecção. É o que chamam de “Teoria da Higiene”.

Mas, não é só no campo da nutrição e  da defesa que as bactérias têm importância para nós. O famoso projeto genoma, que estuda nossos genes, identificou que as bactérias também deram uma contribuição para a nossa evolução. Hoje, há um consenso entre os pesquisadores, que em torno de 40 de nossos genes são de origem bacteriana! A pergunta que ainda não foi respondida é: como que esses genes de origem bacteriana foram transferidos para nós, humanos?

Espero que tenham, ao final do post, entendido porque escolhi este tema. O  que o eu gostaria de dizer para os pais foi: limpeza é importante, mas não há necessidade de se “desinfetar” tudo em volta de um bebê ou criança. Bactérias amigas existem e são importantes para nossa saúde!

Como sempre, enviem seus comentários. São muito bem-vindos.

MEU DIA DA CRIANÇA

guilhermedealmeida-toribaPensei muito sobre o que escrever no dia da criança. Pensei tanto, que acabei não escrevendo nada, no dia. Como estou convencido de que as crianças, espontaneamente, sabem que todos os dias é dia delas e, por outro lado, os pais também percebem isso pelo cuidar diário que elas precisam, acredito ser  pouco importante não ter escrito um post exatamente no dia 12 de outubro.

Mas, há um segundo motivo pelo qual não escrevi no dia 12. Apesar de ser um sábado, foi um dia bastante movimentado. Fui ao consultório pela manhã, cedo, ver crianças que não poderiam esperar. De lá, fui a uma festa para celebrar a Lina, uma linda menina de 6 meses. Deste almoço fui direto para um plantão e, assim, lá se foi o dia 12, sem post!

Essa  introdução, cheia de justificativas, é para chegar onde eu queria. Ou melhor, onde eu ainda hesitei um pouco. Me deu vontade de escrever um post mais pessoal e me perguntei se quem lê o blog de um pediatra que escreve sobre crianças teria algum interesse nas suas memórias e lembranças. Decidi, ainda que sem consultar os leitores, escrever sobre emoções da minha juventude.

Domingo, dia 13, chego ao Hotel Toriba, em Campos do Jordão. Aqui passei férias de julho dos 12 aos 17 anos, com meus pais e irmãos.  Guardava, desse tempo, lembranças deliciosas. A viagem começava a ficar boa, quando chegávamos em Pindamonhangaba, para colocar o carro em cima de um trem, chamado gôndola. Na estação de Pinda, pintada numa das paredes, uma frase que me marcaria para a vida: antes da hora, não é hora; depois da hora, não é hora. Hora é hora!  E lá íamos nós, meus pais e seus cinco filhos, do lado de fora do carro, sentindo o vento no rosto, subindo a serra. Mas, nossa primeira vinda a Campos do Jordão foi muito menos traquila. Vinhamos de São Paulo e meu pai errou a entrada em S. J. dos Campos. Entramos por Pinda e, a bordo de um Simca  Jangada, meu pai pegou a estrada de terra que subia para Campos. Não era uma estrada usada e tivemos que saltar do carro, algumas vezes, para ajudar a empurrá-lo. Imagino o “sufoco” dos meus pais com cinco crianças pequenas a bordo. Finalmente chegamos em algo civilizado e meu pai perguntou a uma pessoa que estava na porteira: “onde é o Toriba?”. Aqui, foi a resposta. Alívio geral. Depois, ninguém acreditava quando meus contavam que tinham subido pela estrada de Pinda. Mas, a lembrança  mais intensa, talvez, era a da liberdade. Pode andar “solto”, correndo com os amigos recém feitos e outros já conhecidos de outras férias, era uma sensação incrível. Andávamos a cavalo, uns pangarés alugados pelo Sr. Simplício, sempre com a emocionante galopada que todo pangaré dá, quando volta para casa.  Minha mãe, uma mulher muito rígida para algumas coisas, era flexível para outras. Assim, ainda sem carteira de habilitação, me deixava dirigir. Qual adolescente não acha o máximo dirigir? De início, acompanhado por ela, depois sozinho! Ia e vinha do Toriba a Capivari, várias vezes ao dia. Outros tempos, menos carros, nenhum trânsito. Mas, de toda forma, uma certa irresponsabilidade da minha mãe, que eu até hoje agradeço que tenha tido! Perto do Toriba, uma colônia de férias chamada Pumas. Lá tive um alumbramento  por uma das monitoras. Como não lembrar de um encantamento juvenil? No Toriba, um esocorrega de madeira levava do térreo a um subsolo que servia de sala de jogos para as crianças, em dias de chuva ou à noite. Uma farra descer nesse escorrega que, como posso constatar no livro de ouro dos 70 anos do Toriba, faz parte das lembranças de todos que por aqui passaram.  No Toriba, no que hoje é uma lojinha de souvenirs, era a sala de TV, onde assisti a chegada do homem à lua, em julho de 69. A televisão era mínima (comparada com as de hoje), em preto e branco, com uma imagem de péssima qualidade. Mas ali estávamos, fixados na tela, vendo o homem fazer algo impensável, pisar na lua. Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade, disse o comandante Neil Armstrong. Não sei o tamanho do passo, só sei que as imagens da chegada à lua e daquela noite de inverno no Toriba, passaram a fazer parte da minha história. Mas, nem só de momentos “‘épicos” se faz uma história de vida. No Toriba aprendi a jogar canastra ou baralho, achando muito estranho que se marcassem os pontos,  em duas colunas: ELES e NÓS. Uma besteira, mas que ficou gravada na memória. No Toriba aprendi a jogar poquer de dados e, o mais importante, conseguia (e consigo até hoje!), puxar os dados da mesa para dentro do copo, com um movimento rápido , arrastando o copo até a beira da mesa e girando a mão. Não é nada, mas fazer isso com 15 ou 16 anos me dava uma sensação de competência e habilidade que me faziam sentir “mais velho”. Nessa idade, quem não gosta de se sentir “mais velho”!

Ao entrar no Toriba, depois de tantos anos, meu olhos se encheram de lágrimas. Sem um motivo específico, mas com todos os inespecíficos. Pude reencontrar tantas coisas exatamente como sempre estiveram e um turbilhão de lembranças me envolveu e eu me deixei levar. Logo na entrada, a placa com um poema de Guilhereme de Almeida que eu sei recitar de cor:

Quem vem lá? É de paz! Entra! À vontade! Sente o que a vida às vezes significa!Depois, parte, ficando… que a saudade é bênção de quem parte e de quem fica.

E assim, passei o meu dia da criança. Me emocionando, com memórias e lembranças. Nenhuma delas ligada a um objeto ou brinquedo. Todas, carregadas de emoção e afeto. Para que o post não fique sendo só uma crônica do passado, me ocorreu reforçar que os verdadeiros presentes que podemos dar aos nossos filhos não são aqueles comprados, mas os vividos juntos.  Mais, há um ditado que diz: “recordar é viver”. Sugiro subverter o ditado: “viver é recordar, no futuro”. Portanto, vivam intensamente os momentos de lazer com seus filhos.  Será um presente para hoje e amanhã. Hoje, produzindo a alegria que contribui para formar um adulto feliz. Amanhã, produzindo a emoção de poder perceber que essa alegria (de ser criança) continua viva!

Não há idade para descermos pelo escorrega da memória afetiva!

Toriba

TREINAMENTO, APRENDIZADO E EDUCAÇÃO

pai_filhoRecentemente, conversando com meu cunhado, Rubens, falávamos sobre a confusão que acreditamos existir entre treinamento, aprendizado e educação. Nosso papo não tinha nenhuma pretensão intelectual ou acadêmica. Chamava-nos a atenção para o valor que pais e a sociedade em geral estão dando ao desempenho em provas e concursos. E, a primeira prova, para muitos era um “vestibulinho” para poder entrar na primeira série de uma escola privada. Concluímos que, começando com aquele vestibulinho, se inaugurava uma substituição da educação por treinamento, sem que nos dessemos conta da enorme diferença que existe entre ambos. Esse papo me estimulou a escrever um post sobre educação. Pensei que  poderia ser interessante ou, no mínimo, provocar quem lê este blog a pensar junto comigo sobre este assunto.

Mas, acabei não escrevendo o post imediatamente. Esta semana, conversando com Luciana Borges, minha orientadora no mestrado, falávamos da formação dos futuros médicos. Uma conversa também sem pretensões intelectuais, apenas nos perguntando o que diferenciava alguns alunos de outros, no que diz respeito à sua postura diante do aprendizado e, mais importante, dos pacientes. Por que alguns alunos tinham mais compromisso com o aprender do que outros? Por que alguns alunos conseguiam olhar para o ser humano que se apresentava como paciente, enquanto outros viam apenas sinais e sintomas que procuravam decodificar em doenças, valorizando mais um diagnóstico do que a pessoa que estava na sua frente? Claro que esta é uma conversa que não terminou. A continuação desta conversa foi um e-mail da Luciana, sem sequer uma palavra escrita, apenas com o quadrinho da Mafalda anexado. Me pareceu ser um “sinal” para, finalmente, escrever um post sobre educação (e aproveitar o quadrinho!).

Treinamento é algo que implica em repetição, sob orientação ou supervisão, de atos, gestos ou práticas. Existem muitas coisas nas nossas vidas para as quais o treinamento é fundamental. Em geral, as aptidões físicas podem ser melhor desenvolvidas com treinamento. Fazemos isso intuitivamente, quando os filhos começam a andar, comer, beber do copo, tomar banho, se vestir, amarrar os sapatos etc. É a repetição, com orientação que produz o resultado desejado que, em geral, é o de tornar automático o que foi treinado. Não só as aptidões físicas podem ser treinadas, mas o uso de tecnologias ou de ferramentas, podem se beneficiar de treinamento. As condições para que um treinamento tenha sucesso, sem entrar em nenhuma teoria sofisticada, seriam: paciência, perseverança e criatividade, por parte tanto de quem orienta o treinamento, quanto de quem o recebe. No caso de crianças pequenas, devemos estar atentos ao tempo que estas “suportam” ficar focadas em algo. Em geral é muito curto e, nós adultos, na tentativa de acelerar ou antecipar os resultados, podemos submeter a criança a um esforço que torne o treinamento chato ou sofrido. Portanto, todo treinamento, deve ser prazeroso, o que não significa fácil ou sem esforço. Finalmente, elogiar quando um acerto ou objetivo é alcançado, por menor que seja, é muito mais eficiente do que criticar um erro.

Aprendizado é quando alguma informação é transmitida de uma pessoa para a outra. Em geral, é o que as escolas fazem- ensinam. Não raro, as escolas misturam ensinar com treinar. Ensinam um conteúdo e treinam a criança para fazer uma prova. Escolas que conseguem melhores índices de aprovação em vestibulares e concursos, são consideradas ótimas escolas apesar de praticarem o que poderia ser chamado de “ensino bulímico”. “Entopem” a criança de informação e pedem para que ela a “vomite” na prova. No final, não sobra nada!

E, francamente, qual a aplicação prática do que as escolas nos ensinam? Quantas vezes, na sua vida, você usou o conhecimento de que a soma dos ângulos internos de um triângulo qualquer vale 180º? Ou então, quando que saber os principais afluentes da margem direita do rio Amazonas (Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu), foi de alguma utilidade prática ou teórica para você? Talvez esses exemplos e centenas de outros que foram decorados por nós, sirvam para jogos e desafios de memória e nada mais.

Treinamento e aprendizado são muito importantes. No entanto, o mundo em que nossos filhos serão adultos, não é este que conhecemos hoje. Será um mundo radicalmente diferente. Portanto, o treinamento e aprendizado que lhes damos hoje, não servirão (ao menos parcialmente) para este mundo futuro. Mas, a educação, essa terá valor, sempre. Um pouco antes, no texto, perguntei qual era a aplicação prática do que nos ensinaram na escola. Agora pergunto, se volta e meia, não estamos dizendo algo como: “minha mãe sempre me dizia…” ou “numa situação como essa, meu pai tinha uma frase ótima” ou ainda “vovô, que nunca tinha ido para a universidade, mas era um sábio, nessas horas diria….”. O que ouvimos de nossos pais a respeito de situações e comportamentos vale até hoje, mais do que a escola nos ensinou.

O que seria então, educação?  Sem grandes preocupações com definições teóricas (e existem muitas!), diria que educação é o que nos prepara para compreendermos o mundo em que vivemos, participando ou contribuindo para sua modificação. Educação seria, portanto, uma construção permanente. Uma obra inacabada, em contínuo movimento. Paulo Freire, um educador fabuloso, entre outras coisas, disse: “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!”

mafaldaValores, moral, senso de justiça, respeito pelos outros, cordialidade, isso é educação. Educação não se terceiriza, contrata ou compra. Educação só acontece quando a transmissão se dá com afeto ou emoção e, acima de tudo, credibilidade. Educação não é uma palestra ou discurso. Não é uma “lição de moral”. É uma atitude, uma forma de existir no mundo, que nossos filhos absorvem, dão o seu toque pessoal e incorporam como sendo suas verdades na e para a vida. Educação não é para sermos mais produtivos ou eficientes. É o que permitirá aos nossos filhos serem sujeitos (donos) das suas vidas, buscando o que todo mundo busca, ser feliz.

Aproveitem o domingo para sair com seus filhos, educando-os a ler o mundo, antes de ensiná-los as letras e numeros.  Divirtam-se!

PS1- o blog ficou longo, devem perceber o quanto eu gosto do assunto.

PS2- Prof. Luciana e eu achamos que o que diferencia alguns alunos de outro é a educação. Principalmente porque muitos vieram das mesmas escolas e aprenderam as mesmas coisas!