Arquivo | abril 2013

PERDI A PACIÊNCIA!

Mães e pais equilibrados, tranquilos e serenos, preparados e capazes de enfrentar toda e qualquer situação com racionalidade, objetividade e stress-busting-tips-for-momcalma, só existem em livros de auto-ajuda, revistas femininas e blogs de pediatras! No mundo real as coisas nunca se passam como descritas, sonhadas ou idealizadas. No mundo real, a adolescente se tranca no seu quarto que, aliás, está uma bagunça, se recusando a sair para jantar com a família. No mundo de verdade, o bebê que acabou de chegar em casa da maternidade chora sem parar, apesar de já ter mamado, a fralda estar seca, o ambiente escurinho, tranquilo e gostoso. No vida real, nosso filho de 8 anos vomita na hora em que estamos saindo para ir ao cinema enquanto a sua irmã, de 5 grita que não a amamamos. Uma coisa é certa, o mundo real não frequenta esses livros maravilhosos que têm uma solução para tudo, ou ensinam (em 7 passos) como a felicidade plena pode ser atingida com filhos dormindo a noite toda, comendo legumes, verduras e frutas, voluntariamente e respondendo, sempre, de forma gentil, amável e educada.

No mundo real, perdemos a paciência! Nada mais humano.No entanto, muitas vezes nos sentimos culpados por perdermos a paciência. É como se fosse algo proibido, terrível. Não é. Faz parte da vida, inclusive da de nossos filhos. Criar um mundo artificial onde todos estão sempre de bom humor, com um sorriso beatífico nos lábios, enquanto o Junior roda o gato pelo rabo é a receita para que esses filhos se tornem, provavelmente, adultos com muita dificuldade de adaptação e até de expressar seus sentimentos.  Muitas vezes, essa postura de absoluta serenidade diante do caos, simplesmente é uma dificuldade de dizer não e colocar limites. O que parece tranquilidade é incapacidade.

Se conseguirmos aceitar que perederemos a nossa paciência em algumas ocasiões, talvez consigamos entender (e aceitar) que nossos filhos também perderão a deles. Seja com algum brinquedo, alguma dificuldade, um irmão ou irmã e até mesmo conosco!  O que precisamos avaliar sempre é como nos conduzimos ao perdermos a paciência. Uma coisa é um grito, outra é um ato agressivo. Isso vale tanto para nós, adultos, quanto para nossos filhos. Gritar com brinquedo, é aceitável. Quebrá-lo, não é.  Também devemos avaliar se estamos constantemente impacientes, irritados. Se for o caso, devemos buscar as causas. Às vezes precisamos de um tempo para nós mesmos. Fazer coisas que nos relaxem, incluindo exercícios físicos.  No caso da irritabilidade e impaciência de nossos filhos, se esta for excessiva, devemos avaliar se estão sobrecarregados, sem tempo para simplesmente brincar (sem um objetivo ou meta).

Mas, o que fazer com aquele sentimento estranho, um misto de culpa com vergonha que muitos de nós sentimos, ao perdermos a paciência? Como sempre, não há regras. Talvez o mais importante seja reconhecermos essa reação como normal, humana e seguirmos em frente, sem complicarmos a vida. Se sentirmos que, ao perdermos a paciêcia, fizemos algo que mereça um pedido de desculpas, peçamos. Mesmo que seja para nossos filhos. E nunca devemos esquecer o poder de um bom abraço. Tanto para a nossa impaciência, quanto para a dos nossos filhos. Um abraço forte e carinhoso é uma delícia e, não me perguntem como, é capaz de dar uma guinada no humor de todos.

 

 

ENERGÉTICOS

caffeine_drinksBebidas energéticas contém, na sua maioria, cafeína, taurina, l-carnitina, carboidratos, vitaminas e podem incluir ginseng e guaraná, entre outros suplementos. São consumidos com a expectativa de combater a sonolênica, manter o estado de vigília ou alerta, promover aumento na capacidade cognitiva (de raciocínio)  e motora, além de melhorar o humor.  A cafeína é, em última análise, a principal responsável por estes efeitos. De fato, a cafeína pode produzir vários efeitos benéficos, mas, a questão é em que doses e, mais ainda, para que finalidade? Dependendo da dose, a cafeína pode ter efeitos prejudiciais ou perigosos sobre o corpo humano, tais como: taquicardia, arritmia cardíaca, aumento da pressão arterial, aumento da diurese (urina), insônia, irritabilidade, tremor e ansiedade. Todos esses efeitos, tanto os benéficos, quanto os potencialmente indesejáveis são conhecidos em adultos. Não existem estudos sobre o efeito da cafeína em crianças e adolescentes.

As bebidas energéticas não costumam declarar a quantidade de cafeína que possuem. A variação entre as marcas é enorme, podendo ir de 80mg a mais de 500 mg de cafeína, que corresponde a aproximadamente 14 latas de refrigerante! Além da cafeína, muitos energéticos possuem guaraná na sua fórmula. Guaraná é uma fonte de cafeína (1mg de guaraná =40 mg de cafeína). Quando os energéticos declaram a quantidade de cafeína, não contam com  o guaraná, tendo, portanto, mais cafeína do que o declarado.

Os outros ingredientes das bebidas energéticas pouca ou nenhuma função possuem. São  muito mais uma forma de apresentar o produto como sendo “completo” ou “complexo”, dando ao mesmo um caráter científico e de credibilidade. Vejamos o exemplo da taurina que é um dos aminoácido mais abundantes no corpo humano, presente na carne, peixes, sem necessidade alguma de suplementação. Os efeitos propagados pelos fabricantes de bebidas energética carecem de fundamentação científica. O mesmo ocorre com os demais ingredientes que são “vendidos” como benéficos, sem comprovação efetiva.

Talvez a pergunta que os pais devam se fazer é por quê os adolescentes consomem bebidas energéticas? Parte dessa resposta deve ser encontrada no investimento em publicidade e propaganda que essa indústria faz, focada, principalmente, no jovem do sexo masculino. Não é por acaso que a imagem dos energéticos está associada a esportes em geral e aos radicais em particular. Um outro aspecto é o de que os adolescentes, não raro, consomem os energéticos com bebidas alcoólicas. Como a cafeína é um estimulante do sistema nervoso central, o adolescente não tem a percepção de embriaguês, ainda que testes tenham comprovado que os reflexos estão tão prejudicados quanto nos que não tomaram uma bebida energética. Esssa falta de percepção de embriaguês leva o adolescente a dois comportamentos de risco: beber mais, porque não se sente embriagado e se expor fisicamente ao dirigir um veículo ou fazer coisas que demandem reflexos e equilíbrio (andar por lugares estreitos, saltar de um lugar para o outro , escalar um muro ou rocha etc.).  Mas, o vilão desta história não é o energético e sim a bebida alcoólica. A tolerância para um adolescente consumir bebida alcoólica deveria ser zero. O primeiro argumento, que deveria ser definitivo e não negociável é porque o consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos é proibido por lei. Tolerar que bebam, além de colocá-los em risco real, é uma aula de anti-cidadania. Se algo é proibido por lei, é proibido por lei e ponto final!

Mas, além do rigor na imposição de limites, fundamental para adolescentes, há um enorme espaço para se conversar.Não basta comentar sobre os aspectos farmacológicos ou químicos dos energéticos.  O vínculo de confiança entre pais e adolescentes é fundamental para a formação de um adulto saudável e feliz.

Não quero criar, com este post, um clima de terror com relação aos energéticos. Não constituem um “inimigo” a ser combatido, um mal moderno etc.  O perigo está na bebida alcoólica  o seu consumo por parte dos adolescentes.Não devemos temer colocar limites claros e precisos. Enquanto pais organizarem festas de menores de 18 anos onde bebidas alcoólicas são servidas, não faz o menor sentido falar de energéticos.

Sempre fico curioso em saber o que pensam os leitores dos posts. Mandem seus comentários que sempre enriquecem o blog.

CÊRA DE OUVIDO

Cerúmen. Parece personagem de uma história infantil. Um personagem meio sombrio, talvez assustador. O Cerúmen vinha andando cotonetepelo bosque, quando viu um sapo no lago… Mas, esse tal de cerúmen, nada mais é do que a cêra do ouvido. Médicos adoram falar um idioma próprio e precisam de palavras difíceis para falar de coisas triviais!

Afinal de contas, o que é a cêra de ouvido? É uma mistura de queratina, uma proteína produzida por algumas células do corpo, entre as quais a pele, que tem uma função impermeabilizante e gordura produzida por glândulas que ficam no conduto auditivo (ver figura). A cêra do ouvido tem três funções básicas:

  1.  Impedir, por ser oleosa,  o ressecamento da pele do conduto auditivo. Pelo mesmo motivo (oleosidade) , protege a pele do conduto auditivo de um eventual excesso de umidade (quando entra água do banho, piscina ou mar).  Tanto a pele ressecada, quanto a úmida em excesso, se torna mais frágil, podendo se romper. Ao se romper, perde parte da sua capacidade de proteção e fica mais vulnerável a bactérias ou fungos, facilitando o aparecimento de uma otite externa. 
  2. Agir como uma barreira física, dificultando que impurezas, germes e corpos estranhos, atinjam diretamente o tímpano (ver figura). As impurezas se misturam com a cêra do ouvido e são eliminadas pelo crescimento da pele do conduto auditivo que se dá dentro para fora. Esse mecanismo de crescimento da pele, de dentro para a fora do ouvido cria um “sistema autolimpante” do ouvido.
  3. Matar bactérias. A cêra de ouvido é tóxica para várias bactérias, desta forma reduzindo a probabilidade de uma infecção.

Assim, podemos concluir que a cêra de ouvido, não só é algo normal, como tem funções de proteção do ouvido muito importantes. Como estes aspectos da cêra de ouvido não são os mais difundidos ou do conhecimento de todos, esta é percebida como sujeira. Ninguém gosta de sujeira. Se é sujeira, precisa ser limpa.  A pergunta é como limpar os ouvidos?

anatomia-da-orelha3Como disse acima, os ouvidos possuem um mecanismo autolimpante. A pele do conduto auditivo cresce de dentro para fora, trazendo, com seu crescimento, pedacinhos de cêra. Em princípio devemos deixar que os ouvidos façam o seu trabalho sozinhos. Quando a cêra atinge o pavilhão auricular (veja figura), pode ser removida pelos pais, ou pela criança maior. O uso de cotonetes para limpar o ouvido apenas empurra a cêra mais para dentro, criando a possibilidade de um tampão (rolha) de cêra que somente será removida por um otorrinolaringologista. Por esse motivo, o uso de cotonetes deve se limitar ao pavilhão auricular ou orelha. Muitos pais dirão que o cotonete limpa porque sai sujo de cêra. Sem dúvida, o cotonete ao empurrar a cêra, fica com parte dela aderida ao algodão. O que não vemos é quanto foi empurrado! Portanto, a grande maioria das pessoas não precisa limpar o ouvido. Muito menos ir a um otorrino para fazer uma lavagem. Uma porcentagem mínima da população produz mais cêra que o habitual. Estas pessoas poderão necessitar de visitas periódicas ao otorrino, mas, como dito, são a exceção.

Lembretes práticos:

– cêra é normal e protege nossos ouvidos

– o ouvido tem um mecanismo de se limpar sozinho, empurrando a cêra, com impurezas, para fora

– somente quando a cêra estiver do lado de fora do conduto auditivo é que pode ser limpa pelos pais

– nunca usar cotonetes ou introduzir outro tipo de instrumento, para limpar os ouvidos. Isso só empurra a cêra mais para dentro e pode produzir uma rolha de cêra

Agora, a historinha do começo deste post bem que poderia ser: lá vinha o Cerúmen carregando sujeira para fora do ouvido. Andava no ritmo das células da pele, lentamente se dirigindo para a orelha. De repente, o monstro branco se aproxima e o Cerúmen grita- cotonente não! Tarde demais, lá está no nosso pobre Cerúmen esmagado, esprimido, apertado, pertinho do Tímpano, entupindo o ouvido.

Como sempre, dúvidas e sugestões são mais do que bem-vindas. Envie  seu comentário.

ESTRESSE EM CRIANÇAS

stressDiante de um perigo ou situação crítica, o ser humano tem uma reação chamade de fuga ou luta. Esta reação ocorre quando, por algum estímulo, o organismo produz uma descarga de adrenalina. A partir desta descarga algumas reações acontecem. As pupilas se dilatam, há uma redução da circulação periférica, a frequência cardíaca aumenta. Tudo isto para nos deixar em uma situação onde ou vamos fugir (correr) ou vamos lutar. Passado o perigo ou situação crítica, o corpo volta à normalidade e, não raro, ocorre uma sonolência cuja finalidade é o repouso regenerador. Este é um resumo ultra simplificado de uma reação normal e necessária que temos. Quando a situação crítica ou sensação de perigo não cessa, a produção de adrenalina é constante e não há momento de sono reparador. Essa situação de estado contínuo de descarga de adrenalina é conhecido como estresse e tem consequências muito sérias para a saúde do ser humano. Habitualmente, quando falamos em estresse, pensamos em um adulto, sobrecarregado com trabalho, ansioso e angustiado. Dificilmente associamos a palavra estresse às crianças.

No entanto, por inúmeras razões que vão desde a deprivação emocional, abandono, carências básicas como alimentação e manutenção da temperatura corporal, até um ambiente familiar violento, incluindo maus tratos, a criança pode estar ou ficar estressada. Certamente os exemplos que dei, extremos, devem fazer com que imaginem que, nestas circunstâncias, faz todo sentido uma criança ficar estressada. Mas, quero chamar a atenção para um produtor de estresse infantil, muito mais sutil, porém não menos perigoso. Falo do tempo, ou melhor, da falta de tempo.

Apesar da natureza nos dar lições diárias sobre o tempo adequado, através das estações do ano, ou mesmo da duração de uma gravidez, insistimos com a ideia de que há sempre um “tempo para ser ganho”. Isto é verdade em todas as atividades onde a tecnologia pode nos ajudar, como nas viagens de avião, na transmissão de dados por computadores, nos cartões de crédito ou débito. O perigo é acharmos que o tempo pode ser ganho em todas as atividades humanas. Ou, que precisa ser ganho em todas as atividades humanas. Curiosamente, na época em conseguimos “ganhar mais tempo”, também é quando mais nos queixamos de falta da tempo. Algo parece muito errado nessa equação – quanto mais tempo eu ganho, menos tempo eu tenho. Chegamos ao extremo de declararmos que não temos tempo para nada!  Esse quadro, por si só, seria dramatico. Para piorar, na nossa cultura vigente, não ter tempo para nada é sinônimo de status. Quem tem tempo para algo, geralmente para si, seu lazer e prazer, para os relacionamentos com a família e amigos, ou é um sortudo que ganhou na mega sena ou um preguiçoso irresponsável. Vejam aqui, uma nova contradição. Enchemos o peito para dizermos que não temos tempo para nada, buscando a admiração e reconhecimento de quem nos ouve, mas, se ganhássemos na mega sena, muito provavelmente não usaríamos nosso tempo da mesma forma como usamos hoje.

A questão é que passamos a educar nossos filhos da mesma forma com que vivemos: sem tempo para nada.  Uma criança tem necessidade, para seu pleno desenvolvimento físico e mental, de brincar. Brincar, não necessariamente com brinquedos sofisticados, eletrônicos. Brincar como uma ato de criatividade, onde uma caixa se transforma em casa e uma tampa de garrafa em um animal que está sendo perseguido por uma lata que, na verdade é um leão. Esse brincar só tem uma necessidade: tempo. Tempo para nada, só para brincar. Não é um tempo cuja produtividade vá ser medida no momento da brincadeira, mas, cujo reflexo se pereceberá na vida adulta. Uma criança que tem tempo para brincar, sem que seja na aula disso ou no curso daquilo, desenvolve capacidades fundamentais para uma vida adulta saudável. A criança que cria brincando, se torna mais tolerante com a frustração. Aprende a criar alternativas, com o pouco material que tem. A criança que cria brincando, se torna mais analítica, conseguindo avaliar as variáveis que tem em mãos e gerar soluções (criativas). A criança que tem tempo para brincar, não está submetida a uma agenda rígida, com compromissos e exigências que geram uma descarga contínua de adrenalina (estresse). O brincar com tempo, sem exigências de performance ou metas, em um ambiente acolhedor e carinhoso, é a melhor prevenção para o estresse infantil.

Para os pais, selecionei um trecho do clássico Winnie the Pooh:edward bear

Aqui vem Eduardo Urso descendo as escadas –  bong, bong,bong, batendo a cabeça nos degraus, logo atrás de Cristopher Robin. É, até onde sabe, a única maneira de se descer escadas. Mas, às vezes, ele suspeita que possa haver uma outra maneira de descer. Se ele pudesse ao menos parar de bater a cabeça por um instante e pensar em uma alternativa…

Certamente está na hora de pararmos um pouco para pensarmos em alternativas para o uso do nosso tempo e do tempo de nossos filhos. Não é razoável sentirmos orgulho de não termos tempo. Não é aceitável impormos um estresse desnecessário para nossos filhos.

Os comentários, sugestões e dúvidas são sempre bem-vindos (se tiverem tempo!).