Arquivo | dezembro 2012

2013!

Muita gente faz uma lista de objetivos, metas ou desejos para o ano que vai começar. Aproveitamos esse momento de final de um ano e início do outro para fazermos um pequeno balanço das nossas vidas e listar o que gostaríamos de fazer. Para não fugir à regra e, ao mesmo tempo, encontrar uma forma menos tradicional de desejar boas coisas à quem lê o blog, resolvi fazer uma lista, bem humorada, dos desejos de um pediatra (ao menos, meus!).  Desejo que, em 2013:

  • na medida do possível, as famílias façam uma refeição juntas, por dia
  • a alimentação de toda a família seja saudável
  • os pais brinquem, meia hora a mais por dia, com seus filhos
  • todos vejam meia hora a menos de TV ou computador, por dia, trocando pela leitura de um livro ou revista
  • a família faça mais atividades ao ar livre e, dependendo da idade dos filhos, pratique esportes
  • os pais sejam criativos, estimulando assim a criatividade dos filhos
  • além de etiqueta, bons modos e educação, os pais deem exemplos de comportamento ético e transmitam valores morais a seus filhos, pensando em uma sociedade mais feliz e harmônica onde viverão
  • os pais saibam, não só, colocar limites e exigências, como também, reconhecer conquistas e  progressos dos filhos
  • se abraçem e beijem, muito, todos os dias

e, finalmente

Desejo a todos os leitores do blog (e não leitores também), um 2013 muito alegre e divertido, para todos!

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AVÓS

avós3Quando menos se espera, os filhos crescem e se tornam pais! Entram em cena os avós. Muito se fala e escreve sobre a maternidade, paternidade, o bebê, as diversas fases pelas quais a família passa e pouco ou nada sobre os avós. Neste blog mesmo, nada foi escrito até hoje. Recebi a sugestão de uma leitora para publicar um post sobre como os avós podem ajudar seus filhos e netos. Não é um post fácil, mas como achei a sugestão interessante, compartilho com vocês algumas das ideias que me ocorreram, sobre este tema.

Talvez a coisa mais importante que os avós precisam fazer, desde a gravidez do filho ou da filha, é procurar entender esse novo papel ou lugar que passarão a ocupar. O neto ou neta tem e terá um pai e uma mãe. Caberá a eles toda a responsabilidade pelo bem estar e desenvolvimento do filho. AVÓS NÃO SÃO NEM PAI, NEM MÃE DO BEBÊ. Isso que soa como uma obviedade, não acontece no dia a dia. No intuito de querer o melhor, para todos, e em nome de uma experiência de sucesso, não raro, avós “atropelam” seus filhos com conselhos ou recomendações. O papel de avô e avó lembra aquele momento quando se ensina uma criança a andar de bicicleta e, já sem rodinhas, se solta o selim e aí tudo é com a criança. É torcer para que tudo dê certo e correr para amparar quando acontecer o tombo (e acontece). Esse é o papel dos avós. Assistir de perto, sem interferir, torcendo amorosamente para que tudo dê certo e, correr para ajudar, quando um “tombo” acontecer. Para que os avós tenham esta postura é fundamental que compreendam e aceitem o crescimento e independência real dos filhos. Agora, é a vez deles educarem seus filhos.

O segundo ponto é exatamente sobre a educação dos netos. Os tempos mudam, os filhos não são como seus pais foram, a tecnologia evolui, a escola se modificou. Portanto, a educação não será a mesma que os avós deram para seus filhos. Avós com alguma sabedoria aceitam, ainda que a contragosto, esta realidade e tentam não interferir na educação dos netos.

Avós podem e devem ser um poço de carinho e prazer para seus netos. Como não têm a responsabilidade da educação, podem ser muito menos rígidos, mais afetivos e lúdicos do que foram com seus filhos. Avós devem permanecer vivos na memória de seus netos como lembranças de bons e divertidos momentos. Avós também devem ser transmissores das tradições  e história da família. Devem contar histórias de como eram seus pais (os bisavós), sua infância e como era o mundo quando eram mais jovens. Devem contar histórias de seus filhos (pais do neto ou neta) quando eram pequenos. Crianças, a partir de uma certa idade, acham fascinante ouvir essas histórias. São como contos de fadas, só que reais, falando de gente muito próxima.

Avós devem sentir orgulho de seus netos. Essa é uma função fundamental, um pouco diferente de ser um poço de carinho, mencionado acima. Sentir orgulho é, explicitamente, reconhecer conquistas e feitos dos netos, não necessariamente as que sejam extraordinárias. A auto estima é construída a partir de reconhecimentos de feitos ordinários, porque, os extrordinários, como nome indica, não acontecem toda hora! Como construir uma auto estima em cima de eventos raros? O orgulho falado dos avós é muito importante para essa construção.

Avós apoiam seus filhos nos momentos difíceis pelos quais estes passem como pais. Acolhem as dúvidas e aflições sem assumir uma postura altiva (eu bem que avisei! vocês são teimosos e não fizeram como eu disse!). Ao contrário, revelam que, quando passaram por situações semelhantes, também sentiram insegurança ou medo. Com essa humildade, se aproximam dos filhos, podendo, verdadeiramente, ajudá-los a encontrar seu próprio caminho ou solução.

Finalmente, uma das maiores delícias de ser avô ou avó- quando o neto ou neta já estiver passando dos limites da paciência ou do cansaço (dos avós), basta ligar para os pais e pedir que o peguem!

Gostaria muito de ler comentários dos leitores do blog, contando um pouco da sua experiência de ser avô ou avó ou mesmo comentando o que escrevi. Para encerrar, uma foto que é a síntese do é ser avô ou avó:

EPISTAXE OU SANGRAMENTO NASAL

Médicos gostam de nomes complicados. Parece dar uma certa importância a coisas simples. É o caso de epistaxe, um nome pomposo para um kiesselbachsimples sangramento pelo nariz. Apesar de ser algo simples, costuma assustar os pais, porque a impressão que estes têm é de que o filho sangrou muito. O sangue, como qualquer líquido, se difunde por tecidos que não sejam impermeáveis. É o que acontece com a fronha, habitualmente feita de tecido absorvente. Um pouco de sangue faz uma mancha enorme, assustando a qualquer um que a veja. Mas, na grande maioria das vezes, o sangramento nasal é de pequena quantidade, sem maiores consequências para a criança.

A epistaxe é algo relativamente frequente em crianças. Em torno de 30% das crianças entre 2 e 5 anos e 56% entre 6 a 10 anos, apresentam, ao menos, um episódio de sangramento nasal. Abaixo de 2 anos a epistaxe é rara.

O nariz é uma estrutura muito vascularizada (com muitas artérias e veias), além de ter uma área de superfície relativamente grande. Isso permite que o nariz cumpra algumas de suas funções: filtrar, umidificar e aquecer o ar inspirado.  Uma das áreas mais vascularizada se chama plexo de Kiesselbach, localizado no septo nasal anterior (veja a ilustração). A grande maioria dos sangramentos nasais em crianças acontece a partir dessa área.

As principais causas de epistaxe são:

– ressecamento da mucosa- o que ocorre com o tempo mais frio e seco (umidade relativa do ar mais baixa)

– trauma, sendo o líder no ranking das causas traumáticas, a “futucação” do nariz, com o dedo.

– rinite pode favorecer o aparecimento de um sangramento tanto pela alteração da mucosa como pelo uso (de forma incorreta) de medicação nasal em spray

– infecções como resfriados podem contribuir para um um sangramento, pelo processo inflamatório, pelos espirros, por uma certa  fragilidade da mucosa do nariz.

Se  o seu filho apresentar uma epistaxe, existem três coisas importantes que você deve fazer:

1-MANTER A CALMA. Mesmo que pareça muito sangue, não é o suficiente para causar problemas para seu filho. Lembre-se que o sangue, na fronha, se “espalha”, dando a sensação de um sangramento muito maior do que, de fato, é. Respire fundo e mantenha a calma. Lembre-se que seu filho ou filha ficarão assustados quando virem o sangue e a sua calma também é importante para eles.

2- NÃO COLOQUE A CABEÇA PARA TRÁS.  Essa pode ser nossa primeira reação, mas essa posição (com a cabeça para trás), pode fazer com que a criança engasgue ou aspire o sangue. Deixe a cabeça reta ou, incline o tronco do seu filho discretamente para a frente.

3- COMPRIMA A PONTA DO NARIZ,  com os dedos funcionando como se fosse um pinça. Mantenha a compressão pelo menos por 5 minutos antes de soltar para verificar se o sangramento parou. 5 minutos é uma eternidade! Marque no relógio para evitar de aliviar a compressão antes do tempo e descobrir que ainda está sangrando. Se quiser manter a compressão por mais de 5 minutos, melhor. Se, ao aliviar a compressão, constatar que ainda está sangrando, repita a operação, calmamente. Epistaxis_control

Veja na foto o menino da direita fazendo a pinça com os dedos, de forma correta e o da esquerda, de forma incorreta. Como, neste caso, as fotos explicam melhor do que qualquer texto que possa produzir, coloquei mais duas fotos sobre como fazer a compressão. epistaxis

Resumindo:

– sangramentos pelo nariz são frequentes e beningnos. Não devem ser motivo de preocupação.

– calma

– não colocar a cabeça da criança para trás. Mantê-la reta ou inclinar o tronco um pouco para a frente.

– comprimir com os dedos funcionando como um pinça por, pelo menos, 5 minutos (contados no relógio!).

Qualquer dúvida ou comentário, por favor compartilhem, sabendo que são sempre bem-vindos.

OSCAR NIEMEYER, PEDAGOGO

Oscar NiemeyerUm pediatra escrever sobre um arquiteto? Ainda por cima um arquiteto que faleceu aos 104 anos de idade? Realidades (arquitetura e velhice) muito distantes do universo habitual de um pediatra. Mas, não é qualquer arquiteto. Talvez o brasileiro de maior importância em termos de criação artística e reconhecimento mundial. Só por esse motivo, já mereceria a homenagem de todos nós. Mas, a vida de Oscar Niemeyer foi muito mais do que uma enorme produção de projetos arquitetônicos. Seu modo de viver e perceber o mundo são uma aula a ser apreendida. Nesse sentido, percebo Oscar Niemeyer como um pedagogo. Sem ter cátedra, sem a pompa das instituições universitárias, vivendo a vida como viveu, nos dá a oportunidade de pensarmos melhor a nossa e de nossos filhos.

Oscar Niemeyer era um humanista. Algo que nem sabemos bem o que signifique, tão mecanizado e cronometrado se encontra nosso modo de viver. Comentar que ele produziu, criou, até pouco tempo antes de  morrer aos 104 anos, gera pouca ou nenhuma reação na grande maioria de nós. Como se fosse algo banal, chegar a essa idade, lúcido. Mais do que isso, produtivo. É algo que nos deveria fazer parar por uns minutos para tentarmos aprender algo com uma pessoa assim.  Humanista é alguém que tem seu foco de vida no ser humano. Talvez não seja a definição erudita, mas é a que me parece mais adequada. O humano não é um intrumento para o mundo produtivo. Como humanista, valorizava a beleza porque entendia que era através da emoção que está provoca que se pode alcançar o próximo. Os gregos já pensavam assim, a ponto de criarem um ramo da filosofia chamado Estética. Hoje, não temos tempo para a filosofia. Tempo é dinheiro, diz o mantra equivocado. Tempo é o fio com que se tece uma vida. Oscar Niemeyer sintetizou da seguinte forma: a vida é um minuto! Sua lição foi a de nos fazer sentir, através das suas obras, a importância da emoção na vida cotidiana.

Niemeyer sonhou e ousou. Outra grande lição de vida! Não tolher a criatividade, não aceitar normas vigentes, desafiando até a verdade do concreto que, antes de  Niemeyer, praticamente só conhecia a linha e ângulo reto. O concreto sinuoso, sensual, curvo, como o universo, é uma mudança de paradigma que somente uma mente irrequieta conseguiria produzir. Como disse Bernard Shaw : “O homem sensato se adapta ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar o mundo a ele. Todo o progresso depende, portanto, do homem insensato.”  Niemeyer, nesse sentido, foi um insensato.

Como cético, tudo que queria era aprender mais. Nos últimos doze anos da sua vida, toda terça-feira, se reunia com a sua equipe e um cosmólogo e filósofo, para discutir temas que iam desde a física quântica, passando pela filosofia e incluindo a literatura clássica grega. Num mundo de super especialização, ter a coragem de ser um generalista, é algo extraordinário. E nós, que não temos tempo para ler um livro, assistir uma conferência ou aprender algo novo? Vejam que o Niemeyer fazia essas reuniões de estudo sem parar de trabalhar e produzir! Não era um senhor aposentado que preenchia seu tempo com cursos. Era um ativo e demandado arquiteto que, separava um tempo para investir no conhecimento. E que começou este  investimento aos 92 anos de idade!

Todos os amigos falam da sua generosidade. Valorizava seus relacionamentos a ponto de ter escrito : ” O mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar”.  Também era uma pessoa humilde porque entendeu nossa dimensão no tempo e no espaço. “O homem está num planeta pequenininho, no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá uma ideia da precaridade do ser humano. Nasce, morre, como outro bicho, por isso deve ser mais modesto, ver a vida com paciência, sabendo que estamos no mesmo barco. O sujeito que que pensa que é importante, para mim, é um débil mental”

Se queremos que nossos filhos sejam adultos generosos, curiosos, produtivos,  de sucesso e acima de tudo, felizes, talvez valha a pena pararmos um pouco e olharmos para a vida do Oscar Niemeyer.  Certamente vamos aprender algo. Se vamos ter a coragem de aplicar o que aprendermos, é outra história!

Ficarei muito feliz em ouvir (ler)  os comentários de vocês. Este é um post bem diferente e exprime opiniões pessoais, com as quais ninguém é obrigado a concordar.