Arquivo | outubro 2012

COQUELUCHE

Por que falar sobre uma doença para a qual a maioria das crianças recebe uma vacina? Ainda existe coqueluche? Que pediatra mais desatualizado! Imagine só, escrever um post sobre coqueluche! Talvez essas sejam reações iniciais de alguns leitores do blog. O que nem todo mundo sabe é que a incidência de coqueluche está aumentando em muitos lugares do mundo, inclusive no Brasil. Por esse motivo resolvi comentar alguns aspectos desta doença contagiosa.

A Coqueluche (ou Pertussis) é uma doença infecto-contagiosa, produzida pela bactéria Bordetella Pertussis. Esta, se dissemina pelas gotículas que uma pessoa com coqueluche espalha ao espirrar ou tossir. Por esse motivo, uma pessoa com coqueluche deve permanecer fora do convívio com outras pessoas e, se possível, usar uma máscara para evitar o contágio daquelas pessoas que, obrigatoriamente entrarão em contato com ela. O período de incubação (tempo entre o contato com a doença e o aparecimento de sintomas) é de 7 a 14 dias.

A Coqueluche, na sua fase inicial que é chamada de fase catarral, se parece com qualquer infecção respiratória simples. A criança tem febre, coriza, tosse, uma certa inapetência, em tudo parecendo um resfriado comum. Essa fase dura entre uma e duas semanas. Aos poucos a tosse vai se intensificando, assumindo a caracterísitca que sugere a Coqueluche: uma tosse espasmódica, com acessos de 5 a 10 tossidas, seguidas de um ruído inspiratório forte, às vezes chamado de guincho. Como a tosse vem em salvas repetidas, também é chamada de tosse longa. Não raro, a criança tem ânsia de vômito ou vomita após o acesso de tosse. Nos intervalos dos acessos, a criança parece estar bem. Essa fase, chamada de paroxística, leva entre 2 a 4 semanas para ceder.

A Coqueluche, em geral, é uma doença sem maior gravidade ou complicações. No entanto, em bebês menores de 6 meses, ainda não totalmente protegidos pela vacinação, pode apresentar complicações como pneumonia, encefalopatia (doença no sistema nervoso central- cérebro), convulsões e, em raros casos, morte.

A prevenção da Coqueluche se faz através da vacinação. A vacina contra a Coqueluche é dada em conjunto com as vacinas contra o Tétano e a Difteria. É a vacina DPT (Difteria, Tétano e Pertussis).  A vacinação básica consiste em 3 doses administradas nos 6 primeiros meses de vida (2, 4 e 6 meses). Seguida de um reforço aos 15 meses de vida e outro entre os 4 e 6 anos.  A recomendação da Academia Americana de Pediatria e do CDC de Atlanta é que o reforço da vacina anti-tetânica e anti-diftérica (DT adulto), feita aos 14 anos, seja feita utilizando-se a vacina que contém o componente Coqueluche. Esta vacina, no entanto, só está disponível nas clínicas privadas de vacinação. É a vacina tríplice acelular, adulto (Tdpa). É importante ressaltar que a vacina contra a Coqueluche oferece uma proteção entre 80 e 85% e as crianças que contraem a Coqueluche, mesmo vacinadas, tendem a ter uma forma mais branda da doença. Como a proteção não é duradoura, há necessidade de se fazer reforços a cada 10 anos, junto com os reforços de anti-tetânica que todo adulto deveria tomar. Uma mulher grávida deveria tomar a vacina após a 20º semana da gravidez ou no pós parto imediato. A recomendação é de que todos os adultos que terão contato próximo com o bebê recebam uma dose da vacina tríplice aceluar, adulto. Esta é a forma de reduzir o risco do bebê contrair a doença, numa fase onde ainda não recebeu todas as vacinas. Esta estratégia de vacinar os adultos em torno do bebê (pais, avós e babé) se chama “casulo” porque é como se o bebê ficasse rodeado (como em um casulo) por pessoas protegidas contra a doença e, desta forma, protegendo-o.

Finalmente, se o pediatra suspeitar de Coqueluche, seja pela história de contágio, seja pelo quadro clínico, poderá administrar determinado tipo de antibiótico que, se dado na fase inicial (mais difícil de ser dado porque os sintomas ainda são inespecíficos e não justificariam o uso de antibióticos), pode reduzir a duração da doença. Se dado na fase paroxística, apesar de não reduzir a doença, diminui a sua contagiosidade, protegendo as pessoas em torno do paciente. Remédios para tosse, xaropes caseiros, não funcionam nos casos de Coqueluche e não há nenhuma indicação para seu uso.

Existem outras doenças cuja tosse pode ser parecida com a Coqueluche, fazendo com que o diagnóstico nem sempre seja evidente ou fácil. O melhor a se fazer em caso de febre, coriza e tosse, é procurar o seu pediatra para que ele possa decidir qual a melhor abordagem para cada caso.

Por favor mandem seus comentários e dúvidas. Gosto de tentar respondê-los.

EXERCÍCIOS, QUANDO COMEÇAR?

A resposta é simples: desde o começo! O bebê se movimenta, alonga, mexe com as pernas e braços. Aprende a rolar, o que, no início é um enorme exercício. Depois se senta, engatinha e anda. E aí, não para mais, até chegar à vida adulta e conhecer o sofá, controle remoto e balde de pipoca!

Mas, como os adultos podem contribuir para que o bebê , a criança e o adolescente, sejam ativos? Em cada fase da vida, um tipo de estímulo pode ajudar. Para o bebê pequeno, o primeiro estímulo está em colocá-lo de bruços (barriga para baixo) nos momentos em que estiver acordado. Essa posição permitirá ao bebê explorar movimentos diferentes, como empurrar os braços contra a superfície, elevando o tronco, movimentar as pernas, pressionando os pés contra o colchão etc. Depois, os pais devem seguir o ritmo do seu filho e, à medida em que este for desenvolvendo novas habilidades motoras (rolar, sentar, engatinhar), facilitar que estas ocorram, colocando o bebê em uma superfície suficientemente firme e com estímulos para que se movimente (objetos ou brinquedos). Sempre respeitando o ritmo da criança, sem a preocupação de acelerar o seu desenvolvimento. Se a criança não está pronta para sentar, não adianta tentar forçá-la a ficar nessa posição. O mesmo quando começar a andar. Espere que a criança dê seus passos apoiada para então estimulá-la. Não usem andadores para tentar acelerar o andar da criança.

À medida que a criança cresce, o que ela precisa é brincar, de preferência ao ar livre. Correr solta pela praça ou praia, ficar numa piscina com bóias e acompanhada de um adulto responsável ( de chapéu e com filtro solar), são excelentes formas de uma criança se exercitar.  Sei que é trabalhoso e exige um bom tempo dos pais, mas os benefícios de permitir que uma criança se exercite espontâneamente são enormes. Em algum momento em torno de 2 a 3 anos a criança já consegue aprender a nadar. Ao menos o suficiente para se defender, o que é fundamental.

A partir de quatro a cinco anos, quando a criança já brinca bem com amigos, basta reuní-los em um espaço aberto e seguro, sob supervisão, que econtrarão a forma de se divertirem, correndo, pulando, catando coisas, sentando e levantando. Não precisam de brinquedos caros e sofisticados, só o espaço e amigos. O resto, deixem por conta da criatividade e energia deles. Nessa idade também é divertido fazer programas familiares, como caminharem juntos, jogarem amarelinha, corida de saco, rolar na grama, dar cambalhotas, pular corda, salto em altura e passar por baixo de uma vara. Algumas crianças já andarão de bicicleta com rodinhas e isso pode ser muito divertido também (lembrando sempre do uso do capacete). Programas familiares ao ar livre fazem bem para a família toda!

Em torno dos 6 ou 7 anos, quando a criança já estiver com boa aptidão física e coordenação, pode-se pensar em algum esporte. Não com o rigor competitivo, mas como algo lúdico e diveritdo. Esportes coletivos são sempre muito desejados e animados. Mas os pais também deveriam pensar em esportes que a criança pudesse praticar pelo resto da sua vida, como por exemplo, tênis, pedalar etc. Esportes coletivos podem ser jogados pela vida toda, mas exigem um pouco mais de logísitca do que os esportes individuais.

Para as meninas, aulas de dança funcionam bem como um exercício e costumam ser muito apreciadas por elas. Além do fato de que dão direito a uma apresentação de final de ano, onde toda a família se emociona!

Na adolescência, o estímulo para os exercícios pode ser fazer algo que os pais também façam. Por exemplo, correr ou pedalar com os pais. Pode ser ainda um estímulo para que os pais voltem a fazer algo que já fizeram quando jovens, como o surfe, por exemplo. A prática da ioga também é uma alternativa interessante para adolescentes pois, além do exercício físico, traz benefícios para a saúde mental.  O exercício ou esporte, nessa fase da vida, é um ótimo motivo para pais e filhos estarem juntos, se desafiando, rindo e, principalmente, estabelecendo um vínculo fundamental em uma idade naturalmente conturbada.

Quanto à musculação, não há nenhuma contra indicação para a sua prática. Pelo contrário, todos os estudos realizados demonstram que um programa de musculação feito por profissional competente e sob supervisão qualificada só traz benefícios, a partir da pré adolescência. A questão é que adolescentes tendem a exagerar nas cargas e querem resultados rápídos, se expondo a riscos de lesões. Por esse motivo, a recomendação é que pratiquem musculação sob supervisão.

Crianças que vivem ao ar livre brincando e praticando esportes, associados a uma boa alimentação , têm uma probabilidade muito maior de se tornarem adultos saudáveis e felizes.  E adultos que, por um motivo ou outro, se tornaram sedentários, têm, com seus filhos, uma excelente oportunidade de “entrar em forma”!

Divirtam-se mais ao ar livre com seus filhos. Qualquer dúvida ou comentário, por favor me enviem.

DIA DA CRIANÇA

Se é verdade que todos os dias são dias da criança, existe uma, com toda certeza, que frequentemente fica esquecida e raramente é celebrada. Não falo de crianças pobres. Estas, como todas as outras, se estiverem minimamente bem de saúde, saberão como brincar. Brincam com pouco ou nada, como todas as crianças são capazes de fazer. Crianças são espontâneas e criativas. Por isso nos surpreendem e encantam.

Então, de que criança estaria eu falando? Deixe-me começar pelo começo e só peço uns tres minutos da sua atenção. 

Era uma vez um pediatra que sentiu a necessidade de escrever um blog para os pais e, talvez, para adolescentes. Não queria escrever um blog sério, sisudo, cheio de expressões médicas ou técnicas. Queria compartilhar informações confiáveis, de uma forma que o maior número de pessoas pudesse entendê-lo. Se possível, queria que o texto fosse leve e, onde coubesse, com algum humor. Pois bem, o tempo foi passando e esse pediatra foi escrevendo ora a respeito de coisas ligadas à saúde, ora sobre questões comportamentais e até sobre algumas doenças ele escreveu. Ele se divertia muito escrevendo e gostava quando os pais lhe mandavam comentários. Muitas vezes ele não tinha como responder porque os pais queriam saber coisas dos seus filhos. Filhos que ele, pediatra, não conhecia e, por isso, não podia comentar especificamente. E assim, o tempo foi passando quando, de repente (toda historinha que se preze tem que ter um  momento súbito, um de repente!) chegou o dia 12 de outubro, dia da criança. O que escrever, pensou ele?

Pensou, pensou, pensou e só sabia que não queria escrever nada que fosse banal e óbvio. Empacou! Quando empacou, se assutou e pensou: “melhor eu não inventar nada e escrever sobre sinusite!”. Sinusite é mais simples do que dia da criança, pensou ele. Foi aí que pensou em falar da criança que não é lembrada. A criança que mora dentro de cada adulto! Decidiu então escrever para esta criança, incentivando-a  a fazer algumas coisas:

– lembrar de como era quando criança e tentar brincar, com seu filho,  ao menos de uma das suas brincadeiras favoritas

– pintar ou desenhar. Vale lápis de cor, tinta guache, lápis de cera, tinta a óleo. Vale tudo, só não vale dizer que não sabe desenhar. Inventa.

– contar a história do desenho para seu filho.

– se lambuzar comendo sorvete ou chocolate e gargalhar com o filho ou filha

– andar descalço

– se estiver chovendo, chutar poças, sem guarda-chuvas

A lista poderia continuar, mas o pediatra achou melhor que cada um fizesse a sua listinha. Mais do que uma listinha, ele gostaria que os adultos pensassem menos no que fazer  e mais no como poderiam ser com seus filhos nesse dia. Que soltassem a espontaneidade e criatividade sem o menor receio de parecerem ridículos. Pelo contrário, com o maior desejo de serem felizes.

Finalmente, o pediatra pensou, se eu ainda tivesse uma filhota pequena me abraçaria com ela e diria: você sabia que papai já foi criança como você? Sabia que é uma delícia poder brincar com você e que papai adora ser seu pai?  (As mamães podem  e devem mudar o título!).

São sugestões. Feliz dia das crianças para todos os adultos!

CHUPETAS- SIM OU NÃO?

Algumas crianças sugam para se sentir bem. Isto é, sugam sem ser com a finalidade de se alimentar. Para estas crianças, a chupeta pode ser uma boa alternativa.  Digo alternativa, porque nem todas as crianças gostam ou aceitam uma chupeta. Se o seu bebê não aceita uma chupeta, não forçe o seu uso. Algumas crianças descobrem a mão e os dedos e passam a usá-los como para sugar e se sentir mais calmos. Portanto, a resposta à pergunta – chupetas, sim ou não, é: depende! Depende da criança e das suas necessidades. A única situação onde parece haver uma indicação clara para o uso da chupeta é na hora de dormir. A Academia Americana de Pediatria recomenda, em função de estudos sobre a segurança no sono, que os bebês adormeçam com uma chupeta na boca. Se esta cai durante o sono e o bebê não reclama, não há necessidade de se recolocá-la.

Qual modelo escolher? O único cuidado é com os aspectos de segurança. Assim, escolham uma chupeta que não tem peças que se separam e que permita uma lavagem com água quente. Com relação aos diversos modelos existentes no mercado, só tem um jeito que é testando a aceitação. Uma vez que o seu bebê defina o modelo que gosta, tenha sempre uma ou duas chupetas de reserva. Chupetas tem uma capacidade formidável de sumirem, caírem por entre bancos do carro, atrás de almofadas e outros lugares inusistados. Mantenha a chupeta limpa, lavando-a com água morna e detergente. Troque a chupeta quando ficar velha, ou apresentar rachaduras. Tudo que não queremos é que uma criança aspire pedacinhos da chupeta!

Quais os problemas decorrentes do uso da chupeta? Em primeiro lugar, vimos um aspecto positivo que o uso da chupeta, para dormir, produz: a redução de episódios de síndrome de morte súbita do recém nascido. Estudos demonstram esse benefício do uso de chupeta para dormir, sem, no entanto, explicar os motivos pelos quais isso ocorre. Mas, as evidências são suficientemente fortes que, como dito acima, seu uso para dormir é uma recomendação da Academia Americana de Pediatria. Quanto aos aspectos negativos que potencialmente podem ocorrer, destaco:

  • interferir no aleitamento ao seio. Para os bebês que mamam no seio de suas mães, o uso da chupeta deveria ser postergado até em torno de um mês de idade, quando a amamentação já está bem estabelecida. Alguns recém nascidos podem ficar “confusos” com tipos diferentes de bico e acabar por apresentarem alguma dificuldade de sugar o seio materno.
  • otites – aparentemente há uma correlação entre uso de chupetas e um maior número de casos de otite.
  • sapinho- crianças que usam chupetas tendem a ter mais candidíase oral (sapinho) do que os bebês que não usam.

O uso de chupeta pode atrapalhar a dentição ou a fala? Somente o uso prolongado pode atrapalhar a dentição, produzindo problemas de oclusão ou alinhamento dos dentes. Se a criança usa chupeta aos dois anos, deve-se iniciar um processo de retirada, sem muita pressão. No entanto, uma criança não deveria mais estar usando chupeta a partir do seu terceiro aniversário. Quanto à fala, o único problema que a chupeta acarreta é que fica muito difícil entender o que uma criança diz, com a chupeta na boca. Fora isso, só terá problemas na fala, se tiver problemas com a oclusão ou dentição.

O importante a ser lembrado é que chupetas não devem ser usadas para “enganar” a fome da criança. Se ela está com fome, precisa de comida! Chupetas servem para tranquilizar crianças que se sentem melhor quando sugam algo, sem fins de se alimentar.

Como interromper o uso da chupeta, sem traumatizar a criança? Se eu soubesse a resposta desta pergunta, publicaria um livro que venderia muito. Felizmente, a maioria das crianças perde o interesse (ou necessidade) pela chupeta e a abandona espontaneamente. Outras, conseguem largar a chupeta com algum estímulo como por exemplo dizer que a criança já está grande e que pode dar para um outro bebê, ou dar para coelho da páscoa ou Papai Noel! No entanto, algumas crianças se mantém agarradas às suas chupetas, de tal forma que os pais ficam sem saber o que fazer. Não há receita única, muito menos certa. Desde a tentativa de convencimento através da conversa, passando por estímulos positivos com calendários onde estrelinhas são colocadas para cada dia sem chupeta, até medidas menos simpáticas como o uso de sabor desagradável porém atóxico na chupeta (vinagre é um exemplo), até a retirada total e absoluta da chupeta, aguentando a reação por um ou dois dias. Os pais devem decidir como proceder e o que eu posso dizer é que, se a opção for pela retirada total e completa da chupeta, devem estar preparados para suportar a reação natural que virá, sem ceder e voltar atrás, devolvendo a chupeta. Isso seria um exemplo negativo porque a criança iria aprender que pirraça funciona. Sucesso!

Se você tem alguma dúvida ou gostaria de compartilhar alguma experiência, escreva. Seu comentário será sempre benvindo.