Arquivo | setembro 2012

ESCARLATINA

No post sobre o Doutor Google dei um exemplo usando um caso fictício de Escarlatina. Algumas pessoas me perguntaram sobre esta doença e uma mãe me enviou a notificação que recebeu da escola, relatando um caso de Escarlatina. Resolvi falar (escrever!) sobre esta doença que, no passado, já foi mais assustadora. Hoje, é um doença simples, de fácil diagnóstico e tratamento, com excelente prognóstico.

A Escarlatina é uma manifestação cutânea de uma infecção por uma bacteria que se chama Streptococus pyogenes  ou Streptococo β hemolítico do Grupo A (até que enfim algo que não é virose!). Em geral, a infecção é na garganta, produzindo uma amigdalite. Entre os 3 e 7 anos de idade é que se obervam o maior número de casos que são raros abaixo de 3 anos e acima dos 15.

A doença começa com uma febre, frequentemente alta e,  12 a 48 horas após o início desta, aparecem umas erupções vermelhas (daí o nome escarlatina), na pele. Em geral, as primeiras “pintinhas” aparecem no pescoço, tronco, axilas e virilha, mas se espalham pelo corpo todo. A caracterísitca mais significativa dessa erupção (o nome técnico seria exantema papular) é a textura da pele que fica parecendo com uma lixa fina (áspera). Em alguns casos, as crianças ficam com uma palidez ao redor da boca e a língua pode apresentar uma camada esbranquiçada nos primeiros dias mas que se modifica e passa a ter um aspecto de morango (veja a figura à direita). Essa erupção leve em torno de 7 a 10 dias para desaparecer, mas pode levar até 3 semanas, sem que isso tenha nenhum significado. Algumas crianças apresentam uma descamação da pela, à medida que as pintinhas vermelhas vão sumindo.

Frequentemente essa manifestação na pele é acompanhada de uma amigdalite. Nestes casos, para se confirmar o diagnóstico de infecção por Streptococo, se faz um “swab” da garganta (se esfrega um cotonete mais longo nas amigdalas) e um teste rápido é feito. Este teste fica pronto praticamente na hora e, quando positivo, elimina a necessidade de uma cultura. Quando é negativo, deve-se aguardar o resultado da cultura. Muitas vezes o pediatra nem vai pedir um Strep test (o teste rápido) e, com base na história e no exame clínico, vai medicar a criança. O tratamento das infecções por Streptococo e, portanto, da Escarlatina, é com antibióticos, por 10 dias. Em geral, a criança melhora muito 24 a 48h depois de iniciado o antibiótico. É importante que os pais completem os 10 dias de tratamento para garantir que o Streptococo seja erradicado. A Escarlatina e/ou infecção por Streptococo são doenças simples. No entanto, em um percentual pequeno de crianças que não recebem o tratamento adequado, duas outras doenças, estas sim mais sérias, podem se desenvolver: a Febre Reumática e a Glomerulonefrite Difusa Aguda. A primeira (Febre Reumática) atinge vários sistemas ou órgãos e produz uma cardite (inflamação do coração). A segunda (Glomerulonefrite Difusa Aguda) atinge os rins com um quadro de inchaço (edema) e pressão alta. Quando corretamente tratada, a Escarlatina não tem nenhum risco de se desdobrar em uma dessas doenças. Por isso a importância dos dez dias de antibiótico prescrito, nos horários corretos. Não há necessidade nem indicação de se refazer o “swab” da garganta.

Com relação à transmissão da doença, ela se dá através de contato próximo com alguém que esteja com a infecção. O período de incubação (do momento do contato até os primeiros sintomas) é de 24h até 3 a 5 dias. O período de contágio (tempo em que a pessoa pode transmitir a doença) é até completar 24h de antibiótico. Trata-se de uma doença de período de incubação bem curto e, após 24h de inciado o antibiótico, a criança não a transmite mais. A criança com Escarlatina ou infecção por Streptococo deve ser afastada da escola,  no mínimo, até completar 24h de antibiótico. Em geral a febre e o mal estar duram mais do que essas 24h obrigando a criança a ficar em casa.

Se tiverem dúvidas, mandem suas perguntas. Tentarei responder o melhor possível.

DOUTOR GOOGLE

Seu filho de  6 anos está com febre alta há 4 dias, sem vontade de comer e hoje apareceram umas pintinhas no corpo dele. Você resolve levá-lo ao pediatra e este  examina seu filho, pede para ele abrir a boca e, com um sorriso nos lábios e um tom exultante diz: escarlatina! Seu mundo despenca, mas você, brava mãe, segura a onda e simplesmente olha para o médico, sem dizer nada. Ele percebe dois enormes pontos de interrogação no lugar dos seus olhos e considera importante lhe dizer: fica tranquila, não é nada de mais. Vai tomar antibiótico dez dias e acabou! Você sente um alívio- tem cura! Ao mesmo tempo, a palavra antibiótico lhe assusta. Doutor, precisa mesmo do antibiótico? Ah! Se não tomar, tem uma chance, pequena é verdade, de ter uma doença no coração daqui a alguns anos. Até logo e qualquer coisa, me telefona.

Ainda zonza, chega em casa e, imediatamente, vai para o computador consultar o Dr. Google. Digita escarlatina e aparecem centenas de referências. Abre a primeira e lá está escrito- doença infectocontagiosa aguda provocada pela bactéria Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A. Pronto, agora o que eu pesquiso? Beta Hemolítico parece grave!

Evidentemente que esse cenário de ficção é exagerado. Mas, muito provavelmente, o Doutor Google é consultado, várias vezes, com o objetivo de se obter informações sobre alguma doença. O Doutor Google é muito bom, para quem souber usá-lo. É preciso aprender a criar “filtros” para selecionar as informações confiáveis e preservar a saúde mental. A seguir, algumas dicas, de como criar esses filtros. Não sou um especialista em tecnologia da informação e, quem sabe, o Pedro Doria, colunista especializado do O Globo, nos brinda com uma coluna a esse respeito.

Sugiro que usem um ranking de credibilidade, desenvolvido antes de consultarem a internet. Para assuntos médicos, sugiro o seguinte ranking, começando do menos confiável até o mais confiável:

  1. perguntas avulsas lançadas na internet. Por exemplo- alguém sabe como se trata escarlatina? Qualquer pessoa pode responder qualquer coisa. As pessoas contarão casos, histórias, darão exemplos, mas a credibilidade é nula.
  2. blogs. Um pouco melhor do que respostas avulsas, um blog é escrito por uma pessoa que não tem, obrigatoriamente, compromisso com a qualidade da informação veiculada. Mas, o autor do blog é conhecido e suas credenciais podem contribuir para dar credibilidade ao conteúdo.
  3. portais de notícias. O problema com portais de notícias é que, nem sempre, os jornalistas que comentam sobre saúde possuem experiência nessa área e não conseguem avaliar o que seja efetivamente uma informação válida de uma notícia sem fundamento consistente.
  4. wikipedia. Em geral os artigos da wikipedia são bem escritos. É importante lembrar que a Wikipedia é uma enciclopédia aberta onde qualquer um pode editar um verbete. A Wikipedia não possui um corpo editorial próprio que assuma a responsabilidade pelo conteúdo publicado.
  5. publicações científicas. O público que não é da área da saúde não terá conhecimento para saber quais são as publicações confiáveis.  As boas publicações, em geral, exigem assinatura para serem acessadas. Muitas vezes apenas o sumário é publicado com livre acesso.
  6. sites institucionais. Estes devem constituir a fonte mais confiável para o público em geral. O que é veiculado nos sites institucionais é de responsabilidade da instituição ou organismo. Alguns exemplos de sites institucionais: Organização Mundial da Saúde, Ministerio da Saúde, Sociedade Brasileira de Pediatra, National Institute of Health, Center for Disease Control (CDC), American Academy of Pediatrics, entre outros.

A internet pode ser uma excelente fonte de consultas e informação, desde que saibamos filtrar o que é sério do que é leviano. Recomendo que comentem com seu pediatra o que leram na internet, inclusive pedindo dicas de sites que ele recomende.

Hoje  resolvi não escrever diretamente sobre algum aspecto da saúde das crianças. Minha intenção, ao escrever este blog, é a de divulgar informações e notícias que ajudem os pais a compreender o que se passa com seus filhos. Nesse sentido, comentar sobre uma grande fonte de informação, a internet, me pareceu oportuno. Como sempre, vou gostar de receber as suas críticas e sugestões.

PIRRAÇA

A pirraça é uma reação esperada da criança à alguma frurstração. Em geral essa frustração vem ou do fato de não conseguir fazer algo que estava tentando fazer não conseguindo comunicar direito o que deseja ou por uma restrição imposta por adultos a uma vontade sua. Portanto, para haver pirraça deve haver vontade e esta existe quando processo de independência da criança se inicia. No final do primeiro ano e mais intensamente no segundo ano de vida, a criança começa a querer fazer as coisas sozinha (se vestir, comer, tomar banho etc.) ou explorar o mundo de acordo com sua curiosidade (rasgar livros, puxar coisas, enfiar o dedo na boca do cachorro, colocar a mão dentro da privada etc.). O poeta Vinicius de Moraes definiu muito bem o que é ter filhos no Poema Enjoadinho. Neste, a respeito da curiosidade, independência e vontade própria dos pequerruchos, escreveu: Chupam gilete, Bebem shampoo, Ateiam fogo no quarteirão….

A primeira coisa difícil no lidar com a pirraça é que, ao mesmo tempo em que os pais devem permitir que os filhos expressem suas emoções, devem também ajudá-los a reduzir as reações violentas e comportamentos agressivos. Mais uma vez não há receita pronta que nos ensine quanto de restritivo e quanto de permissivo devemos ser. Tentativa e erro é único método que existe. Cansa, dá trabalho,  mas os resultados compensam. Ousar, mudar, tentar coisas diferentes e aprender com elas, faz parte da alegria de ser pai e mãe. Mesmo sem regras, seguem algumas dicas:

  • distraia seu filho. Ao perceber que está começando a ficar irritado ou frustrado, tente mudar o foco da sua atenção. Mostre algo ou inicie uma nova atividade. A capacidade de fixar a atenção, nesta idade, é baixa e distraí-lo assim que os primeiros sinais de que algo não vai bem, pode ajudá-lo.
  • ignore a pirraça. Se não conseguir distraí-lo, não dê atenção ao comportamento pirraçento. Verifique apenas que ele não tem nenhuma chance de se machucar. Cada vez que reage à pirraça, mesmo brigando ou castigando, pode estar “recompensando-o” com mais atenção (que era o objetivo original dele!)
  • não passe vergonha. Se estiver em local publico e o seu comportamento for constrangedor, simplesmente tire-o do ambiente, sem discussão ou briga. Leve-o para outro ambiente e espere até que se acalme para poder retornar ao que estava fazendo.
  • não pode bater, nem morder. Se a pirraça incluir bater, morder ou qualquer outro comportamento que potencialmente possa machucá-lo ou a outra pessoa, você não deve ignorá-lo. Diga, imediatamente, de forma clara e objetiva, com o tom adequado de voz (severo, sem gritar) que não deve se comportar daquela forma e tire-o da situação por alguns minutos. Não tente estabelecer um diálogo com explicações elaboradas ou lógicas porque, nesta idade (2-3 anos) ele não as entenderá. Nesta idade, perguntas como: você gostaria que alguém fizesse isso com você? ainda não fazem sentido para ele. Simplesmente faça-o compreender que o que ele fez estava errado. Uma frase como: não pode bater ou morder. Isso é feio. surtirá muito mais efeito do que longas explicações sobre porque não se deve bater e morder.
  • castigo, na hora. Se você julgar que algum tipo de punição é necessária, aplique-a na hora e não mais tarde. A criança, nesta idade, não consegue fazer a conexão entre o comportamento que tiveram e um castigo horas mais tarde. O castigo deve ser dado dentro do limite do desenvolvimento da criança. Se for para pensar no que fez, nesta idade, 5 minutos, no máximo!
  • nada de castigos físicos. Por mais irritado ou irritada que esteja (e estará), nunca aplique castigos físicos. Se o fizer, a mensagem ou ensinamento que estará passando é que a agressão é uma forma aceitável de reagir quando se deseja algo. Castigo físico seria bater, beliscar, puxar o cabelo ou qualquer outra ação que provocasse dor ou medo na criança.
  • abraçe com força e firmeza. Não é castigo físico conter com firmeza uma criança. Muitas vezes, é essa contenção firme (como em um abraço bem apertado), acompanhado de uma voz tranquila e serena, que consegue acalmar um ataque de pirraça.

Finalmente, uma observação sincera. Escrever sobre pirraça em um blog é facílimo. Na hora em que seu filho está ali, urrando com se estivesse sendo massacrado e as pessoas te olham com espanto, é que as coisas ficam realmente difíceis. Portanto, exercite a sua paciência e criatividade, pensando nessas situações, antes que ocorram. Se tudo der errado, tente algo bem humorado. Bom humor espanta a raiva e esta é péssima conselheira!

Se quiserem compartilhar suas histórias de pirraça e estratégias que usaram, eu vou gostar muito. Acredito que outros pais também.

POR QUE ALGUMAS CRIANÇAS SÃO VESGAS?

Para responder a esta pergunta, convidei a Dra. Beatriz Simões Corrêa, oftalmologista da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. Vejamos o que nos diz a Dra. Beatriz:

Opa! Para começo de conversa, é bom deixar claro que “vesgo” não é a melhor palavra para definir alguém que apresenta desvio nos olhos. O certo é usar o termo estrábico. Afinal, essa pessoa tem o que os médicos chamam de estrabismo! Quem tem estrabismo não consegue dirigir, ao mesmo tempo, os olhos para um determinado ponto. Isso ocorre porque a pessoa estrábica tem um dos olhos torto, ou seja, fora do eixo.

Muitas crianças entre três e seis meses de idade desenvolvem este desvio. Por isso, é sempre aconselhável uma visita ao oftalmologista – médico especialista em olhos – logo no primeiro ano de vida. Mas o estrabismo também pode ser adquirido mais tarde, por causa de traumatismos que provoquem paralisia cerebral. Para saber como o estrabismo surge, precisamos conhecer um pouco mais sobre os nossos olhos! Ao redor deles, existem músculos que possibilitam a sua movimentação (observe as figuras abaixo). Assim, quando olhamos de um lado para o outro, usamos a força desses músculos. O estrabismo surge quando há algum desequilíbrio entre eles. Se um dos músculos fizer mais força que os outros, ele puxará o olho para o seu lado. Com isso, a pessoa estrábica não conseguirá direcionar ambos os olhos para o mesmo objeto. Toda essa briga de força muscular faz com que o cérebro receba duas imagens: a do olho normal e a do olho estrábico. Como ele não pode trabalhar com as duas, esconde a produzida pelo olho com desvio. Esse olho tem plena capacidade de formar imagens e é considerado normal. Mas, se o estrabismo não for tratado, pode ocorrer diminuição acentuada na visão.

Alguns tipos de estrabismo podem ser causados por problemas de visão, como a hipermetropia, por exemplo. Quem apresenta hipermetropia, tem os olhos mais curtos que o normal. Isto provoca dificuldade para enxergar de perto. A pessoa tende a fazer enorme esforço para aumentar a curvatura do cristalino – uma lente transparente que fica por trás dos olhos – e colocar a imagem captada sobre a retina. Todo esse trabalho provoca cansaço, dor de cabeça e, em alguns casos, estrabismo.

O estrabismo deve ser tratado o mais cedo possível, sempre nos primeiros anos de vida. No caso do estrabismo provocado por hipermetropia ou outro tipo de deficiência visual, o tratamento adequado é o uso de óculos. Depois, tapa-se o olho normal para estimular o olho com desvio a melhorar a visão. Sabe qual o resultado? O olho com estrabismo tende a desenvolver a visão igual ao do outro! Pode acontecer de ambos os olhos apresentarem estrabismo. A impressão que temos é de que a pessoa está tentando olhar algo que pousou na ponta do seu nariz. Neste caso, é feita uma operação para alinhá-los. Essa cirurgia deve ocorrer entre o primeiro e o segundo ano de idade por causa do rápido crescimento do olho.

Como o melhor é prevenir, converse com seu pediatra sobre a necessidade de  levar seu filho ao oftalmologista para uma avaliação.

O texto acima foi publicado na Revista Ciência Hoje das Crianças e cedido para este post pela Dra. Beatriz Simões Corrêa e pela revista.